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Sexo antes do casamento, pode?

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Por Hermes C. Fernandes

Esta é uma das questões mais recorrentes e delicadas que me chegam nos comentários de meus artigos ou em mensagens "in box" pelos meus perfis no facebook. Vou tentar ser sucinto para expressar o que penso sobre isso.

Primeiro, sexo é invenção divina. Não há nada de errado ou vergonhoso nele.

Segundo, sexo não é só para procriação, mas também para aprazimento dos seres humanos.

Terceiro, o ideal é que fosse praticado entre pessoas comprometidas através do casamento. Eu disse: o ideal. Isso não me dá o direito de dizer que quem o pratica fora do casamento seja necessariamente um pervertido, um fornicário, um ser desprovido de moral.

As convenções sociais evoluem ao longo do tempo. Nos primórdios, o casamento era acertado entre os pais, envolvendo questões econômicas e interesses mútuos. Estes costumes ainda são praticados por algumas culturas espalhadas pelo mundo. Não havia a bênção por parte de um sacerdote, nem registros em cartórios ou coisa parecida. Tudo se dava no ambiente doméstico, sem padrinhos, bolos, vestidos de noiva, buquê, etc. 

Durante os tempos bíblicos, as pessoas se casavam muito cedo. Tão logo a menina menstruasse, sinalizando que podia se engravidar, ela estava apta para ser entregue por seus pais ao matrimônio. Com o rapaz, bastava que fosse economicamente ativo e pudesse pagar pelo dote da moça. Portanto, nenhum jovem vivia sob a pressão que se vive hoje em dia. Não bastando a pressão hormonal, ainda há a pressão social que se agrava devido à vulgarização do sexo por parte da mídia.

Além do mais, antigamente não havia métodos contra-conceptivos tais como pílulas e camisinhas. Se a transa resultasse em gravidez, os envolvidos deveriam arcar com a consequência. Daí a pressão para que o sexo só ocorresse somente no contexto do casamento.

Hoje em dia, ninguém em sã consciência planeja se casar cedo. Cada vez mais, moços e moças optam por terminar seus estudos, encontrar um bom emprego e só então pensar em constituir família. Quando isso ocorre, a maior parte já está lá pelos 24, 25 anos. Esperar todo este tempo para fazer sexo é um verdadeiro desafio. Quem consegue deveria ser considerado um herói.

Obviamente, creio que a graça de Deus possa nos habilitar a isso. Porém, não me vejo em condição de tornar isso numa regra.

Se um jovem cristão está namorando firme, preparando-se para se casar e porventura cede à tentação e transa com sua namorada, não sou eu quem vai crucificá-lo. Tampouco me vejo em condição de dizer que estão em pecado. Se eles se amam, são mutuamente fiéis, não vivem de maneira promíscua (trocando de parceiros como se troca de roupa), o sexo foi apenas a consumação de seu amor. Repito: sigo achando que o ideal é esperar até o casamento. Mas não faço disso um cavalo de batalha.

O que as Escrituras condenam veementemente é a promiscuidade, que pode ocorrer tanto entre solteiros quanto entre casados.

Quando Isaque se encontrou com Rebeca pela primeira vez, beijou-a apaixonadamente e a levou para a cama (Gênesis 24:63-37). Não houve sacerdotes para legitimar a união, nem papéis para assinar. Alguém se atreveria a dizer que o patriarca hebreu foi um devasso? Eles se amaram desde a primeira vez em que se viram e consumaram sexualmente seu amor.

Não se trata de dar licença para o pecado. Mesmo porque, sexo não é pecado quando consentido por dois adultos que se amam e se comprometem a se amar para sempre.

Meu conselho aos jovens cristãos solteiros é que busquem preservar-se. Eu, particularmente, namorei por cinco anos e só mantive relações com minha esposa após o casamento. Posso garantir que valeu a pena esperar. Mas não posso fazer de minha experiência uma regra. Parafraseando Paulo, adoraria que "todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom" (1 Coríntios 7:7). E mais: "Se um homem tem suficiente domínio sobre a sua própria natureza para não casar, e decide então não casar, terá tomado uma decisão ajuizada. Assim uma pessoa que casa faz bem, e uma pessoa que não casa fará melhor"(1 Coríntios 7:37-38). Parafraseando: Se consegue segurar a onda e não transar, certamente escolheu o melhor caminho. Mas se não consegue, e ambos concordarem em ter relações de maneira responsável, não vejo porque condená-los.

Se não aguentarem esperar e acabarem se entregando, por favor, previnam-se. Uma gravidez indesejada ou uma DST poderão trazer muita dor de cabeça.

O mesmo serve para os adultos solteiros. Se não podem se conter, sejam, ao menos, responsáveis.

Aconselho aos meus filhos a buscarem o ideal. Mas não os condenarei se porventura cederem ao apelo do coração (eu disse, "apelo do coração", não chantagem do tipo "prova que me ama". Quem pede prova do seu amor está provando não lhe amar.) Só peço que não sejam inconsequentes e que valorizem mais o sentimento do outro do que suas próprias pulsões. Amem, mas não usem ninguém. Deixem-se amar, mas não se deixem usar nem mesmo por quem afirma amá-los.

Se preferirem esperar (e torço que sim!), que sejam movidos pela consciência, imbuídos de um propósito, e não por pressão de quem quer que seja.

Quanto ao mais, bom seria se nos posicionássemos como Paulo na questão envolvendo as restrições dietéticas judaicas: quem come, não deve julgar quem não come (sem trocadilhos, por favor!), e quem não come, também não deve se considerar superior ao que come. Nisso, "bem-aventurado o que não se condenada naquilo que aprova"(Romanos 14:22). Cada qual deve seguir sua consciência devidamente iluminada pelo Espírito Santo, diante de quem um dia prestará conta. Como bem recomendou o sábio Salomão: "Alegra-te, jovem, na tua mocidade, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade, e anda pelos caminhos do teu coração, e pela vista dos teus olhos. Mas não te esqueças que terás de dar conta a Deus de cada coisa que fizeres" (Eclesiastes 11:9),

O que acho uma covardia é a maneira como muitas igrejas tratam os jovens que eventualmente transam durante o namoro. Alguns são excluídos da comunhão depois de expostos publicamente. Outros são suspensos por um tempo e só são readmitidos depois de prometerem não se tocarem mais até estarem devidamente casados. Quantos jovens já não foram 'devolvidos' ao mundo devido a este tipo de rigidez desproporcional?

Não adianta fazer vista grossa. Nossos jovens estão transando. E maneira de se lidar com isso não é jogando-os fora, nem colocando sobre seus ombros um peso que até a liderança teve dificuldade de carregar durante a sua própria juventude. Estou convencido que a melhor maneira de se lidar com isso é através da conscientização. Em vez de proibir terminantemente, prefiro advertir quanto à seriedade do ato e suas eventuais consequências. Evitem transar. Mas se o fizerem, o mundo não vai acabar por isso. Sejam, ao menos, responsáveis. Lembrem-se ainda: Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convém (1 Coríntios 6:12). A resposta à pergunta do post é "sim". Poder, pode. Mas será que devem? Convém? Se der para segurar a onda, aconselho que segurem. Principalmente se isso causar dor ou decepção a alguém que ama, sobretudo, a seus pais.

E aos 'moralistas de plantão' que a esta altura já estão escandalizados comigo, dedico uma reflexão de C.S.Lewis:
"Se alguém acha que cristãos consideram a falta de pureza sexual como o pecado supremo, está errado. Os pecados da carne são ruins, mas são os menos ruins dentre todos os pecados. Os piores prazeres são puramente espirituais: o prazer de apontar os erros dos outros, de agir como um superior, de querer mandar, maldizer e de ser um estraga-prazeres; os prazeres do poder, do ódio. Pois há duas coisas dentro de mim, competindo com o ser humano que eu preciso tentar me tornar. São elas o ser Animal e o ser Diabólico. O segundo é o pior dos dois. É por isso que um pedante, frio e hipócrita que vai à igreja regularmente pode estar mais perto do inferno do que uma prostituta. Mas, é claro, é melhor não ser nenhum dos dois."



Quem faz sexo antes de se casar comete fornicação?

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Por Hermes C. Fernandes

Ao tratar de um assunto tão polêmico como o sexo antes do casamento, eu sabia dos riscos que corria. E o principal deles seria ser mal interpretado. Nem Jesus escapou a isso. Quando respondeu a Pedro acerca do destino que daria a João, dizendo que se quisesse que ele permanecesse vivo até a Sua volta, assim seria e ninguém teria nada com isso, os discípulos se puseram a espalhar o boato de que João jamais morreria. Obviamente, não entenderam bulufas do que Jesus intentava dizer. Semelhantemente, houve quem entendesse meu texto como um incentivo ao sexo pré-marital. Alguns comentários que recebi chegaram a ser agressivos. Houve quem sugerisse que se eu assumisse não pertencer mais ao segmento protestante estaria prestando um serviço à causa.

Apresento abaixo algumas das reações sucedidas por minhas respostas.
Como é interessante não? Uma das principais marcas dos falsos mestres é que cedo ou tarde descambam para a relativização dos princípios morais como estabelecidos pela Palavra de Deus. Eles cedo ou tarde farão uso de discursos bem atraentes, aparentemente bem elaborados, inclusive usando a própria Bíblia, com argumentos infantis que só conseguem atrair para seu apoio alguns que ainda não se demoraram em investigar o assunto profundamente na Escritura. Lamento que pessoas como esse tal "bispo Hermes" consiga platéia que os aplauda, é realmente lamentável.
"Falso mestre"? Não seria mais louvável se quem me chamou assim apresentasse seu ponto de vista sem precisar atacar a minha honra? Que tal rebater sem apelar a argumentos ad hominem? O que seria a tal "relativização dos princípios morais"? Seria o mesmo que aplicar os princípios bíblicos dentro de um contexto diferente da época?
Depois de anos flertando você conseguiu...parabéns mais um herege intelectual na igreja do Brasil...você está delirando, cada vez mais abraçando o relativismo e disfarçando de piedade e amor..que pena...e podem me colocar a alcunha de fundamentalista e religioso..Fornicação é pecado em qualquer circunstância, teólogo que deixa de interpretar para inventar é herege.
"Herege intelectual". Isso é um elogio? Que tal só "herege"? (ironia mode on). "Intelectual" é muito pomposo para mim. Deixando de lado a acidez de sua crítica, vamos entender o que é fornicação?

Fornicação (palavra que vem de fornicis, ou fornix: abóbada, ou arco). Fornice era o arco da porta sob a qual as prostitutas romanas se exibiam. Criou-se então o verbo "fornicare" (fornicar), que seria o ato de frequentar esse lugar. Com o tempo, a igreja católica atribuiu a este verbo o significado de qualquer prática sexual considerada ilícita, dentre as quais o sexo antes ou fora do casamento. A palavra ilícito significa imoralidade, ou o que é contrário às leis. Portanto, originalmente, fornicar era o mesmo que recorrer ao serviço de uma prostituta. Nada tinha a ver com relações sexuais pré-maritais.
Voce adora polemizar e chamar a atenção hein!? Que belo pensamento pervertido e vazio de doutrinas bíblicas, mas cheios de humanismo e liberalismo! Mas tem o lado bom, eu estava esperando só mais alguma baboseira liberal a ser dita para clicar em "desfazer amizade". Só peço a Deus que use de misericordia para com aqueles que batem palmas para lideres pervertidos de mente e de coração como você. Já não tem mais nada a contribuir para o bem da igreja! Adios! [sic]
Primeiro, "falso mestre", depois "herege intelectual" e agora "pervertido de mente e de coração". Tudo porque expus um tema que tem sido varrido pra debaixo do tapete por décadas. Preferem mantê-lo assim, na penumbra, na clandestinidade. Se o casal de namorados transou, tudo bem. Desde que ninguém fique sabendo para evitar escândalo. E se vazar, basta colocá-los pra fora sem dó nem piedade (desde que um deles não seja o filho ou a filha do pastor ou do principal dizimista da igreja). Não se trata de humanismo ou liberalismo, mas de coerência e compaixão. A misericórdia que o autor da crítica pede para com os que "batem palmas" para líderes pervertidos como eu deveria cobrir cada um de nós, sobretudo, os que se acham melhores que os demais, moralmente puros, sem mácula. Lembre-se que com a medida de misericórdia com que houvermos julgado os outros, nós mesmos seremos julgados. Portanto, se for para errar na medida, exagere na misericórdia e não no juízo. Quanto a desfazer a amizade, fique tranquilo. Tenho uma enorme fila de pedidos de amizade que não pude atender por causa de quem ocupa lugar só para bisbilhotar o que digo e sair por aí criticando gratuitamente. Afinal, "andarão dois juntos se não estiverem de acordo?"
Amigo Hermes C. Fernandes, que artigo excelente, me alinho a estes pensamentos em gênero numero e grau. Mas por favor se poder me explique este texto a luz do seu artigo: " Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se". I Co 7:9. Não taria este texto Paulino proibindo o sexo antes do casamento ?? " duvidas aqui"
Não tem como conciliar o texto de Paulo com o artigo que o Hermes escreveu amigo,tanto é que ele não respondeu até agora,é uma questão de escolha mesmo,ou você fica com o que Paulo escreveu nas Escrituras ou com o que Hermes escreveu neste artigo!
Em momento algum Paulo faz uma proibição. Na verdade, ele vai na mesma direção do meu texto. "É melhor casar..." Não é exatamente o que digo no texto? Todos os conselhos de Paulo nessa passagem visava poupar seus leitores de um sofrimento desnecessário. Algumas coisas ele dizia como "concessões" e não propriamente como mandamentos (confira 1 Co.7:6). Ele fazia questão de dizer: Isso digo eu, não o Senhor. Já outras, ele dizia enfaticamente:  Isso diz o Senhor, não eu (v.10). Como é bom poder distinguir uma coisa da outra. A opinião de Paulo estava condicionada à cultura na qual estava inserido; diferente daquilo que o próprio Senhor fala e que transcende o tempo. Como pai, o apóstolo os aconselhava a buscar sempre o caminho mais excelente. Entretanto, ele sabia que nem sempre isso seria possível. 

E desde quando viver abrasado é manter relações com um parceiro com quem se pretende casar? Viver abrasado é viver subindo pelas paredes, se masturbando a três por quatro, consumindo lixo pornográfico em busca de alívio para as suas pulsões. Para viver assim, é melhor que se case. Mas quando a gente imagina "casamento", o que nos vem à mente é a cerimônia com tudo o que tem direito, fruto da fantasia que a burguesia tinha acerca da realeza. Lembra daquela passagem que diz "honrado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula" (Hebreus 13:4)? O vocábulo grego traduzido ali por leito é koitē, de onde provém a palavra coito. Não há nada de vergonhoso ou pecaminoso no ato sexual em si. O ideal é que seja praticado dentro dos limites do matrimônio. Mas o que seria o matrimônio se não um compromisso perene entre duas pessoas adultas? Como posso chamar de fornicários duas pessoas que se amam e são mutuamente fiéis? 
Uma das maiores aberrações que já li. Usar textos para aliviar o que é pecado é loucura. Falar que Isaque não teve cerimônia de casamento é o mesmo que dizer que Por Abraao ter tido várias mulheres hoje também é permitido. Sexo é divino sim, prazeroso sim, mas para ser realizado com santidade (separação). Não eh peso não! Eh como a oferta que entregamos a Deus e QUEM AMA (a Deus e ao parceiro) ESPERA. Paulo Fala em 1Co 7 8 E aos solteiros e viúvos digo que lhes seria bom se permanecessem no estado em que também eu vivo. 9 Caso, porém, não se dominem, que se casem; porque é melhor casar do que viver abrasado. Sem mais. Não mude a Bíblia e ensine os jovens a pagarem Um preço de santidade.
O que é mesmo pecado? Seria tão somente violar um código moral? Então, Oseias pecou ao casar-se com uma prostituta? E não foi o próprio Deus quem ordenou que assim fizesse? E quanto a Isaías? Teria pecado durante os anos em que desfilou despudoradamente nu pelas ruas de Jerusalém cumprindo igualmente uma ordem divina? Mas isso também não violaria um código moral? Teria Deus pecado ao utilizar-se do ventre de uma mulher casada para gerar Seu Filho eterno? Sabe o que acontece quando fazemos uma leitura meramente moral das Escrituras? Não sobra pra ninguém. Nem mesmo pra Deus! 

Que bom que pecado não é nada disso. Pecar é errar o alvo. O alvo de nossa existência é a glória de Deus e o bem de nosso próximo. Quando insistimos em viver para nós mesmos, estamos em franca rebelião contra Deus. O amor próprio é o cerne do pecado. Todo nosso amor deve está direcionado a Deus em forma de adoração e ao próximo em forma de compaixão e serviço. Tem muita gente se submetendo a um código moral extremamente restrito e ainda assim vivendo em pecado. Pagar um alto preço para adquirir um padrão de santidade somente para sentir-se bem consigo mesmo e superior aos demais... ISSO É PECADO! 

Sexo é potencialmente pecado. E sabe quando o sexo se torna pecado? Quando é feito visando exclusivamente nosso próprio prazer, sem considerar os sentimentos do outro. Tem muita gente pecando mesmo estando casado. Por exemplo: forçar sexualmente alguém é estupro, mesmo quando se trata do cônjuge. Quantos cristãos estupradores há por aí, hein? E ainda usam a Bíblia para respaldar sua conduta grotesca. Transar com a esposa pensando em outra é adultério. Transar com o marido visando algum benefício material é prostituição. A única maneira de sexo não ser pecado é quando praticado por amor. Ao término da transa, a gente se sente amado, não usado como se fosse um vaso sanitário. 

Meu objetivo ao escrever aquele post era aliviar a carga que a religião tem colocado sobre os ombros de nossos jovens. Não incentivo ninguém a transar antes da hora. Eu mesmo só mantive relações com a minha esposa depois de casado. Meus filhos afirmam ter o mesmo propósito. Só não quero que isso seja um fardo sobre eles, nem sobre os filhos de ninguém. E que ninguém mais case só para poder transar. Esta tem sido a principal causa do fracasso no casamento de muitos jovens cristãos. Que se casem unicamente por amarem e se sentirem amados, dispondo-se a conviver lado-a-lado para sempre. Sem pressão. Sem hipocrisia. Sem falso moralismo. 

Se tiver que esperar, espere simplesmente por amar e não para sentir-se melhor ou mais santo que os demais. Se não conseguir esperar, também não se sinta um fiasco, nem ceda às acusações dos super-santos. Amar é humano. Acusar é diabólico. 

O que não te contaram sobre o Halloween

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Por Hermes C. Fernandes

Já perdi a conta das inúmeras advertências que abarrotam as redes sociais acerca do perigo por trás da celebração do Halloween. Segundo alguns, isto abriria uma brecha para a entrada de demônios em nossos lares. Deixando de lado as teorias mirabolantes que demonizam a festa, o que, de fato, significa tal celebração?

Para começo de conversa, "Halloween" é simplesmente uma contração de All Hallows 'Eve (Véspera de Todos os Santos). A palavra "Hallow" significa "santo", ("Hallowed Be Thy Name" = "Santificado seja o Teu Nome"). O Dia de Todos os Santosé comemorado em primeiro de novembro. É a celebração da vitória dos santos em união com Cristo. A observância de várias celebrações de Todos os Santos surgiu no ano 300, e estes foram unidos e fixados em primeiro de novembro 700 anos depois. A origem do Dia de Todos os Santos e de Véspera de Todos os Santos (Halloween) no Mediterrâneo não tem nada a ver com o druidismo celta ou com a luta da Igreja contra o druidismo, de onde viriam as tais bruxas (presume-se que não houve sequer qualquer coisa como druidismo, que na verdade seria um mito inventado no século 19 por neo-pagãos). 

Na Primeira Aliança, a guerra entre o povo de Deus e os inimigos de Deus foi travada no plano humano contra os egípcios, assírios, etc. Com o advento da Nova Aliança, no entanto, a nossa batalha principal é contra os principados e potestades, contra anjos caídos e demônios que cativam os corações e as mentes dos homens na ignorância e no medo. Estamos certos de que através da oração, fé, e obediência, os santos de todas as eras hão de ser vitoriosos em sua luta contra essas forças demoníacas. O Espírito nos assegura: "O Deus de paz esmagará Satanás debaixo dos vossos pés em breve" (Romanos 16:20). 

Não estou aqui defendendo a celebração de tal festa, mas apenas oferecendo uma versão diferente daquela que geralmente tem sido ensinado nas igrejas. Conhecer nunca é demais. 

Nos Estados Unidos, maior nação protestante do mundo, muitos cristãos celebram sem qualquer culpa. As próprias igrejas usam seus estacionamentos para venderem abóboras que são usadas durante a celebração. No primeiro ano nosso lá, tivemos muito receio de abrir as portas para as crianças que batiam pedindo doces. Mas depois, verificamos que tudo não passa de uma brincadeira ingênua, e passamos distribuir doces e balas para as crianças que lá chegavam dizendo "doce ou travessura". 

Quanto à celebração desta festa em solo brasileiro, não vejo com maus olhos, mas também não acho que seja necessário importar mais uma festa estrangeira, tendo em vista nossa riqueza cultural. Sem contar que para nós, protestantes, há uma celebração muito mais importante que não pode ser ofuscada por qualquer festa popular. 

A propósito, Feliz Dia da Reforma para todos! A Reforma Protestante deve ser celebrada como uma vitória de todos os santos, tanto daquela era, quanto da nossa.

É pecado honrar os mortos?

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Por Hermes C. Fernandes

Todo segundo dia do mês de novembro se comemora no Brasil o Dia de Finados. Milhões de pessoas dirigem-se aos cemitérios para prestar homenagens aos seus mortos. Trata-se de um feriado católico, e que, portanto, não é observado por outras religiões, inclusive pelos evangélicos.

Particularmente, acredito que os evangélicos desperdiçam uma ótima oportunidade de relembrar seus antepassados.  Poderíamos adaptar esta celebração à nossa fé. Em vez de orar pelos mortos, como se isso pudesse interferir de alguma maneira em seu destino, poderíamos render graças por eles pelo legado que deixaram, ou simplesmente pela oportunidade que tivemos de conviver com eles.

Não há nas Escrituras qualquer respaldo para que os vivos orem pelos mortos. Mas também não há nada que nos impeça de agradecer a Deus pela vida que tiveram. Não apenas os que nos foram contemporâneos, mas também os que viveram muito antes de nós. Temos uma dívida de gratidão com todas as gerações que nos antecederam.

Já era costume homenagear os mortos nos dias de Jesus. Ele mesmo conta que os religiosos de seu tempo adornavam os sepulcros dos profetas. Em momento algum Ele condenou tal prática. Mas deixou subentendido que a melhor maneira de honrá-los era encarnar seus ensinamentos.

Ademais, as discípulas mais chegadas de Jesus foram ao Seu sepulcro prestar-lhe homenagem póstuma, achando que ainda estava morto. Nada há de errado nisso. Seres humanos necessitamos de vínculos, não apenas com os vivos, mas também com os que nos precederam. Isso ajuda a conferir sentido à existência. Somos todos ramos de uma árvore cujas raízes se encontram abaixo da terra.

Cada vez que leio uma obra escrita séculos atrás, meu coração se enche de gratidão a Deus por haver instrumentalizado aquela vida para abençoar a várias gerações. Louvo a Deus por Paulo, Agostinho, Francisco de Assis, Teresa d'Ávila, Lutero, Calvino, Edwards, Spurgeon e tantos outros. São homens como Abel, que mesmo depois de mortos, sua contribuição não perdeu a eloquência.

Confesso que nunca fui ao cemitério prestar homenagem a ninguém, a não ser por ocasião do sepultamento. Às vezes, sinto-me culpado por jamais ter depositado flores no túmulo de meu pai e no de minha querida sogra. Porém, tenho buscado honrá-los através de minha vida. A melhor maneira de honrar a memória de minha sogra é amando sua filha até o fim. E a melhor maneira de honrar meu pai é honrando o seu legado, jamais permitindo que caia no esquecimento.

Quanto à comunicação com os mortos defendida por algumas tradições religiosas, não há qualquer possibilidade à luz das Escrituras. Há, entretanto, uma maneira de comunicar-nos com eles. Os valores que aprendi do meu pai foram introjetados, tornando-se parte do meu ser. Cada vez que tenho que tomar uma decisão importante, lembro-me do que ele me ensinou. Aquela voz rouca ainda soa dentro de mim. A sepultura guarda apenas seus restos mortais, que aguardam o dia da ressurreição. Porém,  quem carrega sua vida sou eu e meus irmãos.  Meu pai vive em mim. Sou a extensão de sua existência terrena. Trago em mim, além seu DNA, sua ética, seus princípios e valores. E hoje, ele fala comigo através do eco de sua voz em minha consciência.

Definitivamente, meu pai não era perfeito. E a outra maneira que tenho de honrá-lo é buscando aperfeiçoá-lo em mim.

Se puder ir ao Cemitério depositar um ramalhete de flores, faça-o sem culpa. Mas lembre-se que seu ente querido já não está lá. Assegure-se de que ele vive em você, em sua memória, e na maneira como tem procurado conduzir-se nesta vida. 

Masturbação: pecado ou tabu?

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Por Hermes C. Fernandes


O caminho ideal para o prazer sexual é a dois e não sozinho. Entretanto, o autoerotismo é uma prática muito mais presente do que geralmente ousamos admitir. Como cristãos que almejam viver dentro de um padrão moral compatível com a proposta do evangelho, resta-nos perguntar: Afinal, masturbar-se é ou não pecado? O que a Bíblia diz sobre o assunto? A resposta é: nada. Não há uma única linha em todo livro sagrado tratando desta prática que tem sido tão aviltada por cristãos ao longo dos séculos. Já houve até quem preferisse se castrar a deixar-se vencer por esta 'tentação'.

O termo técnico usado para a masturbação é onanismo, devido a uma interpretação equivocada do episódio em que Onã foi severamente castigado por Deus por interromper o coito, derramando seu sêmen no chão.[1] Bem da verdade, Deus não o castigou simplesmente por interromper o coito e desperdiçar seu sêmen, e sim por se recusar a deixar descendência a seu irmão. Naquela época, quando um homem morria sem deixar filhos, cabia ao seu irmão desposar a viúva, de modo que o fruto daquele relacionamento fosse contado como pertencente ao falecido, provendo-lhe, assim, um herdeiro. Não havendo descendentes, a herança ficava para o próprio irmão. Onã aceitou desposar a cunhada, mas não quis perpetuar o nome do irmão (era assim que se falava à época).  Ele quis desfrutar dela, mas sem honrar a memória de seu irmão. Sem filhos que pudessem herdar os bens do pai, a viúva poderia ficar desamparada. Portanto, a questão não envolvia lascívia, e sim egoísmo e avareza. Além do mais, Onã não estava se masturbando, e sim interrompendo o coito. Não há qualquer outra passagem bíblica que fale direta ou indiretamente sobre ejacular fora da relação sexual.

Diante do silêncio da Bíblia, como deveríamos nos posicionar? Em decorrência disso, creio que tenhamos liberdade de lançar mão de outras fontes para determinarmos se a masturbação seria ou não uma prática nociva. Dentre estas fontes, eu destacaria a ciência.

A masturbação é um fenômeno comportamental que pode ser verificado em pessoas de todas as faixas etárias. Na infância ela surge como uma forma de descoberta progressiva do corpo, e é considerada pelos psicólogos como uma fase natural da evolução da sexualidade. Ninguém deve tocar alarde por flagrar uma criança brincando com seus órgãos genitais. Isso é simplesmente natural. Mas é na adolescência que a masturbação atinge sua maior incidência. Essa fase é caracterizada por uma explosão dos hormônios, que faz com que o adolescente se sinta impulsionado a se masturbar frequentemente.  Foi-se a época em que bastava alegar que a prática da masturbação dá espinhas, ou provoca qualquer tipo de anomalia psíquica, para convencer nossos jovens de evitá-la. Quem se propuser a dissuadi-los da prática, terá que abalizar seus argumentos. Vivemos na era da informação!

Proponho que façamos uma breve análise à luz da ciência e do espírito do evangelho.

Os sexólogos são unânimes em dizer que a masturbação faz parte de uma vida sexual saudável, sendo totalmente segura e inofensiva. Recente estudo revela que homens que ejaculam mais de cinco vezes por semana tem 33% menos chance de desenvolver câncer de próstata. Muitas toxinas responsáveis por doenças ficam alojadas no trato urinário. Através da ejaculação, o organismo expulsa tais toxinas do corpo. Obviamente, um homem que não tenha vida sexual ativa estará bem mais vulnerável a desenvolver uma doença a partir destas toxinas, caso não recorra ao hábito da masturbação. Ademais, a masturbação também ajudaria a resolver dois pesadelos de muitos homens:  a incontinência e a disfunção erétil, evitando a ejaculação precoce e fortalecendo a imunidade. E não são apenas os homens que se beneficiariam com a masturbação. Além de ser considerada pelos sexólogos uma ótima maneira da mulher conhecer o próprio corpo e suas zonas erógenas, ajudaria também na prevenção de infecções. O orgasmo ajuda no alongamento dos músculos do colo do útero, contribuindo para a eliminação do muco cervical contaminado por bactérias que podem causar infecções vaginais. Pesquisas sugerem que esta atividade previne a endometriose, doença responsável pela infertilidade feminina. Previne também a incontinência da mulher, reduz as cólicas menstruais, alivia o estresse, libera dopamina, hormônio responsável pelo prazer e o bem estar. Ajuda na liberação do hormônio prolactina, que auxilia a mulher a ter um sono de melhor qualidade.

Todos esses benefícios podem ser atribuídos ao orgasmo obtido no intercurso sexual e não propriamente à masturbação em si. O problema é que nem todos são sexualmente ativos.

Um jovem cristão que tenha optado pelo celibato até o casamento não tem como usufruir de tais benefícios senão através da masturbação. E é aí que surge o conflito, pois ele é exaustivamente orientado a evitar a prática por ser considerada pecaminosa.

E o que dizer de indivíduos adultos sem vida sexual ativa? Como lidar com a pulsão sexual estando viúvo ou divorciado? Seria errado recorrer à masturbação em busca de alívio momentâneo?

Pastores fazem coro ao condenar a prática como sendo nociva à alma, pois estimularia a lascívia e o adultério. Afinal, dizem eles, ninguém se masturba pensando em Deus ou em futebol, ou em coisas que não sejam reprováveis pela moral cristã. Se Jesus disse que bastaria que o homem olhasse para uma mulher cobiçando-a em seu coração e já estaria em adultério, logo, quem alimenta fantasias sexuais durante a masturbação também estaria pecando. Seria este um argumento bem embasado?

O vocábulo grego traduzido por “mulher” nessa passagem é gyné que significa “mulher desposada”[2].Desejar a mulher alheia é um dos pecados condenados nos dez mandamentos. Masturbar-se não é apenas tocar-se ou friccionar o órgão genital. Isso por si só não seria suficiente para levar a pessoa ao orgasmo. É necessário que sua mente se deixe levar por fantasias sexuais. Mas desde quando estas fantasias devem ser com alguém casado? 

Digamos que o marido seja privado de ter relação com sua esposa, seja por estar viajando por muitos dias, ou por ela estar de resguardo, seria errado ele se masturbar pensando nela?

E quanto aqueles cujos cônjuges ficaram inutilizados devido a uma enfermidade ou acidente? Seria errado recorrer a este expediente? Não seria melhor isso do que trair o cônjuge ou mesmo trocá-lo por alguém saudável?

E no caso de um jovem que “escolheu esperar”? Enquanto espera, o que fazer com os efeitos provocados pelos hormônios em seu corpo? Alguns têm a sorte de descarregá-los durante os sonhos nas chamadas poluções noturnas. E quanto aos que não têm?

Seria errado se uma viúva se masturbasse pensando naquele que foi o grande amor de sua vida? Ou não seria cruel privá-la disso em nome de uma moral deturpada e hipócrita?

Conheci um missionário estrangeiro que enquanto viajava recorria ao chá de erva doce ou camomila para manter-se calmo ante a privação sexual decorrente da ausência de sua esposa. Ele teria pecado se durante o banho recorresse à masturbação? Estou convencido que não. 

Apesar de tudo o que expus até aqui, devo salientar o perigo que há em tornar este hábito num vício, numa espécie de prisão. A diferença entre o remédio e o veneno está na dose. Assim como as Escrituras não condenam comer, e sim a glutonaria, nem condenam dormir, e sim a preguiça, posso garantir que elas também não condenem a masturbação, e sim o seu vício.

Há pessoas que mesmo casadas e tendo seu cônjuge disponível, preferem recorrer à masturbação em busca de prazer. Mesmo que isso não seja nocivo ao corpo, poderá ser devastador à alma. Geralmente, este vício está ligado ao uso de material pornográfico fartamente disponível na internet.  A pornografia cria expectativas mirabolantes que nem sempre são alcançadas pelo parceiro, levando a pessoa à frustração. Não há nada de errado em fantasiar, estimular o parceiro com carícias, buscar variar o ambiente ou mesmo a posição sexual, desde que isso não viole a consciência da pessoa amada. Como disse no início deste post, o ideal é que o prazer seja a dois, numa via de mão-dupla, onde a satisfação do outro seja nossa prioridade.  O maior problema da masturbação quando estimulada por material pornográfico não é a lascívia, mas o egoísmo. Aliás, lascívia nada mais é do que a busca do prazer pelo prazer, de maneira egoísta, sem preocupar-se com a satisfação do outro.

Alguns homens recorrem à masturbação antes de se relacionarem sexualmente com sua parceira para evitar a ejaculação precoce e assim privá-la do orgasmo. Não se pode dizer que estes ajam movidos por egoísmo, e sim por altruísmo.


Como vimos, em se tratando de sexualidade, nem tudo é preto no branco. Há sempre uma área cinzenta que devemos considerar antes de sair por aí condenando hipocritamente uns aos outros. 

Se eventualmente, você incorrer nesta prática, não se deixe consumir pela culpa. Se o coração lhe condena, lembre-se de que "maior é Deus do que o nosso coração".[3] Mas poupe sua mente do lixo pornográfico. Peça ao Espírito Santo para fazer uma faxina em sua alma e procure direcionar todo o seu desejo para a pessoa amada e não para si mesmo.

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[1] Gênesis 38:9-10
[2] Mateus 5:28
[3] 1 João 3:20 

O lado negro da força

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Por Hermes C. Fernandes

Vira e mexe, presenciamos um surto racista inundando as redes sociais. Meses atrás o tempo fechou para Maju, a garota da meteorologia do Jornal Nacional. As bolas da vez são Taís Araújo, com seus exuberantes cachos e inquestionável talento para a dramaturgia, e o ator John Boyega, o novo Stormtrooper da franquia cinematográfica Star Wars. Quem estava acostumado com Darth Vader, um vilão branco com armadura negra, terá que se acostumar com um personagem negro em armadura branca. Os personagens mudam, mas o roteiro é vergonhosamente o mesmo. Não suportamos ver um negro em proeminência. Isso parece depor contra nossa suposta superioridade. Afinal, não custa nada relembrar de que somos os detentores de quase todas as patentes científicas. Nossa genialidade já está mais do que comprovada. Então, o que é que um negro está fazendo na ancoragem de um telejornal? Já não basta se destacarem tanto nos esportes? Agora querem também a ribalta, o protagonismo político, a ascensão econômica? Quem eles pensam que são?

Surge, então, campanhas do tipo “somos todos Maju”. Por um breve momento, todos discutem o tema, para logo em seguida voltar ao usual ostracismo. Ninguém é Maju, senão ela mesma. Ninguém conhece a dor causada pelo preconceito do que aquele que a sofre na própria pele. O máximo que podemos é nos solidarizar. Mas cada um segue sendo o que se é. 

Quando chega novembro, mês em que se comemora a consciência negra, Morgan Freeman, ator negro norte-americano, surge nas redes sociais para nos dizer que “o dia em que pararmos de nos preocupar com a consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com a consciência humana, o racismo desaparecerá.” Muito legal ouvir isso de um negro bem-sucedido em Hollywood. Mas ouso discordar do “todo-poderoso”. Não será varrendo o problema para debaixo do tapete que vamos resolvê-lo. Enquanto houver negros sendo explorados, diminuídos por causa da cor de sua pele, vituperados, perseguidos, o dia da consciência negra não poderá cair nos descaso.  Não basta saber que há negros dirigindo conversíveis em Beverly Hills, ou morando na Casa Branca, ou à frente de empresas multinacionais. Enquanto houver negros vivendo em condições subumanas nas favelas dos grandes centros urbanos, convivendo com ratos à beira do esgoto a céu aberto, lesados em seus direitos essenciais, mister se fará conclamarmos a sociedade a abraçar a causa do negro. 

Nossas raízes mais profundas estão na África. Se Adão, o primeiro homem, fosse branco, teria sido feito da areia da praia, não do pó da terra (sim, creio que o poema da criação nos ofereça muitas pistas importantes sobre nossas origens). À medida que nos afastamos do paraíso, símbolo da integração com o Criador e com o restante da criação, empalidecemo-nos. O frio das longínquas terras para as quais migramos nos clareou a epiderme, mas também resfriou nossa alma. Nossos cabelos ficaram escorridos, pois não precisavam mais reter a água que refrigerava nossas têmporas durante os dias de sol escaldante das regiões áridas do velho continente. Perdemos o tônus muscular quando deixamos de correr pelas savanas para escapar das feras. Passamos a nos refugiar em cavernas para nos proteger do frio. O fogo agora não nos servia apenas para assar nossa comida, mas também para aquecer nossas noites e preservar a rica herança negra que carregávamos na alma. Os tambores jamais deixaram de rufar. Mesmo sem entender direito o que efeito que causavam na constituição de nosso ser, deixávamos que seu som nos seduzisse e nos pusesse a dançar. Cada canto, cada passo de dança, cada ritual, era uma tributo que prestávamos às nossas raízes.

Se nossa mente é grega, nossa fé é judaica, nossas leis são romanas, nossa moral é vitoriana, nossa alma é africana. Se a Mesopotâmia é o nosso berço, a África é o útero no qual fomos formados. Não há como negar! A melanina que nos falta à pele pigmenta nossa alma. Não é possível disfarçar por muito tempo nossa latente negritude, pois ela ainda vibra ao som dos tambores, se delicia pelo encanto dos sabores e se inspira nos ideias de heróis como Luther King e Mandela.

Nem mesmo a escravidão foi capaz de sufocar o espírito aguerrido que nos habita. Como a fênix, a África renasce das cinzas através de sua arte, para brindar a civilização com sua desaforada musicalidade.

Somos todos filhos da África. Mas numa espécie de Édipo planetário, ensejamos matá-la e nos apoderar de tudo o que ela produz. Queremos sua arte, sua jinga, sua fé, sua fibra, mas rejeitamos sua gente. Cobiçamos as curvas de seus corpos, mas desprezamos os traços de seus rostos. Invejamos sua virilidade, mas nos enojamos de seu odor.  Ambicionamos sua força e destreza, mas rejeitamos sua companhia.

Nosso preconceito nos entrega. Revela nossa face mais cruel e indigna. Expõe nossas vísceras fétidas, carregadas de excremento racista.

Fizemos a eles o que Dalila e os filisteus fizeram a Sansão. Vazamos seus olhos quando lhes oferecemos uma educação tacanha, incapaz de fazê-los enxergar criticamente o arranjo social no qual são inseridos. Tosquiamos seus cabelos ao convencê-los de sua suposta fraqueza e inferioridade. Pusemos-los a trabalhar em nossos moinhos, tornando-os meras engrenagens de nosso sistema, lubrificado pelo seu sagrado suor.  E por fim, cedemos-lhes (não sem resistência) a ribalta, proporcionando-lhes a ilusão de serem o centro das atenções enquanto nos divertimos à sua custa. Iludidos são os que pensam que não haverá uma reação. Tal qual o herói hebreu, abraçaram os pilares de nossa cultura, mas em vez de derrubá-los, passaram, na verdade, a escorá-los. Se quisessem, derrubariam nosso templo, e nos soterrariam sob os escombros de nossa vaidade. Mas surpreendentemente, preferem nos poupar, abençoando-nos com sua presença no mundo, ensinando-nos a resiliência capaz de sorrir e festejar mesmo em face da dor.

Para riscar a África do mapa, teríamos que rasgar os poemas de Machado de Assis, esquecer os solos psicodélicos de Jimmi Hendrix, a voz rouca de Ray Charles, o balanço de Tim Maia e Jorge Benjor, a genialidade esportiva de Pelé e Tiger Woods, os passos de Michael Jackson, o caráter de Joaquim Barbosa, a envergadura ética de Desmond Tutu, o carisma de Barack Obama, o idealismo de Nina Simone e Bob Marley, o empoderamento de Beyoncé, a extensão vocal de Whitney Houston, o humor de Eddie Murphy, o engajamento de Oprah Winfrey, o brilhantismo da atuação de Sidney Poitier, Denzel Washington, Will Smith, Milton Gonçalves, Lázaro Ramos e o inesquecível Grande Otelo, o talento musical de Cartola, Milton Nascimento, Djavan, Alcione, Emicida e tantos outros. Definitivamente, o mundo não seria o mesmo sem esses ilustres filhos da África. Por essas e outras, dou boas vindas ao mês da Consciência Negra. 

Aborto, drogas, prostituição, homossexualidade: Não se trata da questão relegando-a à marginalidade

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Por Hermes C. Fernandes


A gente paga um alto preço por dizer o que pensa. E por mais que tentemos escapar das armadilhas da ambiguidade, sempre há quem entenda de maneira equivocada o que intentamos dizer. Não faz muito tempo, tive que lidar com severas críticas por haver me posicionado a favor dos direitos das prostitutas. Para alguns, isso indicaria que sou favorável à prostituição. Os tais parecem os ninivitas dos tempos de Jonas, que não sabiam distinguir entre a mão esquerda e a direita. Você diz "alho", eles entendem "bugalho". Colocar-se, por exemplo, a favor da descriminalização das drogas soa-lhes como ser favorável ao uso de entorpecentes. Acenar com a bandeira da paz para os homossexuais, deixando de entrincheirar-se contra eles seria o mesmo que endossar qualquer tipo de promiscuidade que porventura pratiquem, como se héteros também não fossem promíscuos.

Alguns colegas já até me chamaram a atenção, alegando não valer a pena expor-me desta maneira, comprando brigas desnecessárias. Mas o fato é que não sou afeito à neutralidade. Prefiro estar em paz com a minha consciência a ser politicamente correto para ficar bem na fita. 

A maioria prefere manter certas pautas às margens dos temas importantes para a sociedade. Seria como varrer para debaixo do tapete, como se isso fosse esconder a sujeira por muito tempo. 

Como sou discípulo de Jesus, não fujo à luta. O que tem que ser tratado, tem que ser trazido à baila. Feridas não se cicatrizarão apenas com band-aid. Uma assepsia eficaz requer que o carnegão seja exprimido até a última gota de pus. Vai doer, mas vai curar. 

Aprecio a maneira como Jesus lidava com aquilo que os outros preferiam manter às margens. Para que o mendigo cego tivesse sua visão restaurada, os discípulos tiveram que convidá-lo a deixar as margens do caminho e sair ao encontro de Jesus. Doutra feita, em plena sinagoga, onde os deficientes não eram bem-vindos, Jesus convidou a um homem cuja mão era mirrada para que deixasse a penumbra e viesse para o meio, o centro das atenções. Somente ali, Jesus restituiu-lhe os movimentos da mão. 

Tratar de certos temas mantendo-os na marginalidade e clandestinidade é contraproducente, para não dizer, hipócrita. A descriminalização das drogas, o aborto, os direitos dos homossexuais e prostitutas não podem ser mantidos na penumbra, varridos para debaixo do tapete dos falsos escrúpulos e da religiosidade de fachada. Enquanto mantemos nosso discurso anacrônico, as clínicas clandestinas de aborto se multiplicam, o narcotráfico fica cada vez mais poderoso, a prostituição segue galopante e os homossexuais se distanciam cada vez mais da mensagem do evangelho por nos considerarem seus arqui-inimigos. 

Não se trata de ser conivente com qualquer pecado. Se fosse, então, teríamos que admitir a conivência de Jesus ao impedir que a mulher flagrada em adultério fosse sumariamente executada em pleno pátio do templo. Para seus detratores, seu adultério era mais do que um pecado, era um crime passível de punição. Jesus, todavia, tratou-o como pecado e nada mais. 

Um cristão comprometido com as demandas do evangelho jamais seria favorável à prostituição, por exemplo, mas não podemos fazer vista grossa ao sofrimento desumano do qual prostitutas são vítimas nas ruas de nossas cidades. Se podemos atenuá-lo, por que não fazê-lo? Afinal, aquele que sabe fazer o bem e não o faz comete pecado. Jamais deveríamos nos posicionar a favor da droga. Mas também não deveríamos defender a sua criminalização, responsável pela superlotação de nossas cadeias. Que sentido faria enviar um usuário de droga para a prisão, sabendo que lá ele poderá tornar-se numa ameaça muito maior à sociedade? Não é em vão que a cadeia tem sido considerada a faculdade do crime. Entra-se "ladrão de galinha" e se sai formado em assalto a banco. Entra-se usuário e se sai PhD em tráfico de entorpecentes.

Semelhantemente, o aborto pode ser considerado um pecado terrível, e para alguns, injustificável em quaisquer circunstâncias. Mas deixar que essas meninas morram em clínicas clandestinas é um pecado de omissão igualmente injustificável. Se não quisermos que abortem, esforcemo-nos para acolhê-las e, com amor, dissuadi-las deste ato que muitas vezes é fruto do desespero. 

Não será pela via da imposição da lei que as pessoas abandonarão seus vícios e estilo de vida promíscuo ou danoso à sociedade, mas pela via da conscientização e do amor. Como dizem as Escrituras, o amor cobre multidão de pecados.[1]



[1] 1 Pedro 4:8

Abertura do Mar Vermelho: quando o milagre rouba a cena

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Por Hermes C. Fernandes

Ontem, o Brasil parou para assistir à mais aguardada cena da novela bíblica "Os Dez Mandamentos". Não se via tal mobilização popular em torno de um folhetim desde o último capítulo de "Avenida Brasil". Confesso que desde que foi lançada, não me senti atraído à produção. Mas soube que se trata de uma produção muito caprichosa, que tem feito por merecer desbancar a audiência da Globo no horário. 

O que teria alavancado a audiência teriam sido as pragas. Porém, nada poderia se comparar à expectativa em torno da abertura do Mar Vermelho. A Rede Record, de propriedade do bispo Edir Macedo, desembolsou uma bagatela de um milhão de reais para a produção da cena que foi feita num estúdio em Hollywood.

De repente, uma enxurrada de comentários nas redes sociais dava conta da grandiosidade dos efeitos especiais. Todos ficaram muito impressionados com a perfeição gráfica que retratou um dos maiores milagres narrados pelas Escrituras.

Até aí, tudo bem. O que é belo deve ser aplaudido. E como brasileiros, devemos nos orgulhar de uma produção nacional neste nível. Porém, há algo que me causou certa preocupação. Se por um lado, chama-se a atenção para o milagre espetaculoso, por outro, perde-se de vista a razão de ter ocorrido. Fica a impressão de que foi tão somente uma demonstração de poder por parte de Deus. Longe disso, a abertura do Mar Vermelho, bem como as demais intervenções sobrenaturais narradas na Bíblia foram motivadas por amor. 

O que deveria nos chamar a atenção não são as paredes de água que se formaram, mas a libertação de um povo que por séculos viveu sob o domínio dos egípcios. Foi por eles que Deus moveu céu e terra. Ainda que tal milagre não houvesse ocorrido historicamente, o simples fato de uma multidão de escravos ter deixado o Egito rumando à Terra Prometida já se constituiria num extraordinário acontecimento.

Creio piamente na historicidade dos milagres, digo, de todos eles narrados na Bíblia, tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento. Mas se não tivermos cuidado na ênfase dada a eles, corremos o risco de perder de vista o seu propósito. 

Veja por exemplo a virgindade de Maria e a miraculosa concepção de Jesus. Como cristão, creio no dogma. Porém, este não pode ofuscar o mais importante acontecimento da história humana: Deus se fez homem, veio ao encontro de nossas dores para nos libertar de toda opressão. Se a concepção virginal fosse a ênfase, Paulo certamente a mencionaria. Como profetizou Isaías, aquele seria tão somente um sinal. Ora, o sinal não pode roubar a cena do fato em si. 

Os dogmas podem ser rebatidos pelos que não creem. É um direito que lhes assiste. Ninguém é obrigado a crer. Não fosse a atuação do Espírito em nós, tampouco creríamos. Eu, particularmente, não me sinto ofendido quando um dogma bíblico é questionado. Mas quem ousa questionar a ética contida no Sermão da Montanha, por exemplo? Até o mais cético dos homens tem que admitir o teor revolucionário da mensagem de Jesus. 

Cada milagre realizado por Jesus era motivado unicamente por amor, e tinha como objetivo anunciar a chegada do reino de Deus. Todavia, ele jamais se preocupou em chamar a atenção para seus milagres, pois sabia que caso o fizesse, eles poderiam ofuscar seus ensinamentos.

Os poderosos não se preocupam com os dogmas cristãos. Para eles, tudo não passa de fantasia, e como tal, ajuda a manter as pessoas sob controle. A única coisa que poderia preocupar os poderosos é a mensagem subversiva do reino de Deus, com sua ênfase na justiça, na libertação dos oprimidos, na transformação individual e coletiva. Isso sim é perigoso. O resto serve para entreter. 

Toda vez que divulgamos as intervenções miraculosas de Deus na  história, devemos revelar a conexão entre elas e o propósito divino de promover uma sociedade justa, sem preconceitos, ódio, egoísmo e corrupção. Sem isso, serão apenas espetáculos pirotécnicos para fazer arrepiar a espinha de quem os assiste. 

Fora do AMOR não há SALVAÇÃO!

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Por Hermes C. Fernandes

Definitivamente, somos salvos pelo Amor. Seria esta afirmação uma heresia? Afinal, não somos salvos pela Graça somente? Antes que me tachem de herege, permitam-me expor as justificativas a esta afirmativa.

Salvaçãoé um assunto vastíssimo. Várias questões devem ser consideradas antes de chegarmos a uma conclusão.

A primeira delas é: De quê somos salvos? Há várias respostas possíveis, e todas estão relacionadas entre si. Mas a que resume todas é: Somos salvos de nós mesmos. Deixamos de viver centrados em nosso próprio umbigo, para viver para Deus e para o semelhante. O resultado de uma vida auto-centrada é a ira justa de Deus. Por isso, é certo afirmar que somos salvos da ira de Deus. O combustível que alimenta as chamas do inferno é o egoísmo humano. Portanto, também é certo dizer que somos salvos do inferno. O fundamento sobre o qual os sistemas do mundo estão alicerçados é o amor próprio. Logo, também é certo dizer que somos salvos do mundo e de suas paixões.

A segunda questão igualmente importante é: Por qual meio somos salvos?

As Escrituras falam por si:
“Pois é pela GRAÇA que sois salvos, por meio da fé – e isto não vem de vós, é dom de Deus – não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef.2:8-9).
Não haveria outro meio eficiente para salvar-nos de nós mesmos, senão a Graça. Se fosse possível sermos salvos pelas obras, por exemplo, nosso orgulho se retroalimentaria, e continuaríamos cativos de nosso eu.

Mas qual é a fonte desta GRAÇA? O que faz com que Deus Se importe com gente como nós, pecadores inveterados, cheios de defeitos, dignos de sua ira santa? A resposta está bem debaixo do nosso nariz. Trata-se da mais conhecida passagem bíblica:
“Porque Deus AMOU o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo.3:16).
Portanto, a fonte de toda graça é o AMOR. O sacrifício feito na Cruz é a mais contundente prova do amor de Deus pela humanidade. Veja o que Paulo diz sobre isso:
“Mas Deus prova o seu AMOR para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm.5:8).
Não consigo entender como há gente capaz de pedir prova do amor de Deus. Não há mais nada para se provar. Independentemente das lutas que tenhamos nesta vida, o amor de Deus por nós já está mais do que provado.

Sem amor, jamais haveria salvação. A graça nada mais é do que o amor de Deus em operação.

Permitam-me uma analogia: a graça é o rio de Deus fluindo por entre os homens. O amor é a fonte de onde suas águas jorram. E a fé é o canal, a calha, por onde essas águas fluem. A fé abre o caminho para que as águas do rio de Deus desaguem em nosso ser. Porém, esta fé, que também é dom de Deus, é operada pelo amor. Veja o que Paulo diz sobre isso:
“O que importa é a fé que opera pelo amor” (Gl.5:6a).
A fé dada por Deus não se articula sozinha. Sem amor, a fé seria como o leito de um rio seco.
Daí a ênfase dada por Paulo: “...ainda que eu tivesse toda a fé, de maneira que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria” (1 Co.13:2b).

Não se trata de uma fé espetaculosa, preocupada em afirmar-se. Mas de uma fé gentil e gesticulosa, que se apóia no amor ao próximo. Se tiver que remover uma montanha, será para abrir caminho para que outros passem. Uma fé que se revela mais em pequenos gestos de amor do que em grandes demonstrações de poder.

Ademais, se somos salvos por Deus, logo, somos salvos pelo Amor, porque DEUS É AMOR!

E é este amor que desloca o eixo de nossa existência, fazendo com que deixemos de viver para nós mesmos. No dizer de Paulo, “o amor de Cristo nos constrange (...) Ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si...” (2 Co.5:14a-15a).

E finalmente, a última questão com que nos deparamos é: Para quê somos salvos?

Para revelar ao mundo o amor de Deus através de nossas obras. A mesma passagem que diz que somos salvos pela graça, independente das obras, também diz que fomos "criados em Cristo Jesus para as boas obras" (Ef.2:10).

As obras não são a causa de nossa salvação, mas o resultado dela. Esta graça em nós operada deve resultar em AÇÕES de graça.

Quem quer que se atreva a declarar que está salvo, porém não age como tal, engana-se a si mesmo, e continua igualmente perdido. João arremata:
"Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte (...) Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós. E devemos dar a nossa vida pelos irmãos" (1 Jo.3:14,16).
Afirmar que é salvo não é suficiente para comprovar nada. Salvação que não resulte em amor é como achar que mergulhou num rio, e saiu de lá seco, porque o rio não passava de uma miragem no deserto.

Assentimento intelectual não basta. Passar por um ritual batismal, idem. É necessário que sejamos batizados no AMOR.

PERIGO: Pastores Psicopatas

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Por Hermes C. Fernandes

Uma das profissões que mais atraem psicopatas é a de pastor. Pelo menos, segundo os estudos do psicólogo Kevin Dutton, autor do livro “A Sabedoria dos Psicopadas: O que santos, espiões e assassinos em série podem nos ensinar sobre o sucesso”. Dutton conta que psicopatas nem sempre são pessoas conturbadas como muitos acreditam. “Quando psicólogos falam sobre o termo psicopatia, eles se referem às pessoas que têm um conjunto distinto de características de personalidade, que incluem itens como destemor, crueldade, capacidade de persuasão e falta de consciência e empatia”.

Geralmente, os psicopatas são dotados de charme, simpatia, carisma, capazes de impressionar e cativar qualquer pessoa com invejável destreza. Ninguém imagina que por trás de seu jeito educado, inofensivo e gentil se esconde alguém desprovido de consciência, capaz de atitudes cruéis e desumanas.

Um pastor psicopata assume uma personagem performática quando sobe ao púlpito. É capaz de encenar os papéis mais dramáticos como se estivesse num teatro. Em questão de segundos, transita entre a tragédia e a comédia, provocando lágrimas e gargalhadas com a mesma desenvoltura. Mas tudo não passa de fachada para disfarçar sua astúcia.

Não se trata de um louco varrido, mas de alguém que vive na fronteira entre a sanidade e a loucura, mas sem perder o controle. 

Suas maiores habilidades são mentir, enganar, ludibriar, trair, sem sequer sentir-se culpado ou envergonhado. Trapaceiam, difamam, traem, abusam de autoridade, roubam, e sentem-se confortáveis com isso. A única coisa que não admitem é serem desmascarados. Não pela vergonha que passariam, mas porque isso os impediria de continuar enganando.

Cinicamente, se aproveitam da dor alheia para se locupletar. São verdadeiros predadores soltos na
sociedade à procura de pessoas vulneráveis que caiam em sua lábia.

Psicopatas gostam de ser o centro das atenções. Por isso, sempre buscam oportunidade para roubar a cena. Querem estar em evidência a qualquer custo. Ainda que isso custe o sofrimento de outros.

Algumas das principais características do psicopata são:

 1 – Carisma : Tem facilidade em lidar com as palavras e convencer pessoas vulneráveis. Por isso, torna-se líder com frequência. Seja na política, na igreja, no trabalho ou até na cadeia.

2 – Inteligência : O QI costuma ser maior que o da média: alguns conseguem passar por médico ou advogado sem nunca ter acabado estudado para isso.

3 – Ausência de culpa : Não se arrepende nem tem dor na consciência. É mestre em botar a culpa nos outros por qualquer coisa. Tem certeza que nunca erra.

4 –Vanglória: Vive com a cabeça nas nuvens. Mesmo que a sua situação seja de total miséria, ele só fala de suas supostas glórias. É do tipo que come sardinha e arrota caviar.

5 – Habilidade para mentir : Não vê diferença entre sinceridade e falsidade. É capaz de contar qualquer lorota como se fosse a verdade mais cristalina. Algumas vezes acredita em sua própria mentira.

6 – Egoísmo : Faz suas próprias leis. Não entende o que significa “bem comum”. Se estiver tudo bem para ele, não interessa como está o resto do mundo.

7 – Frieza : Não reage com sinceridade ao ver alguém chorando ou sofrendo.

8 – Parasitismo :  Quando consegue a amizade de alguém, suga até a medula.

Infelizmente, algumas destas características têm sido fartamente encontradas em líderes religiosos, vitimando milhares de pessoas com suas artimanhas.

Os pastores psicopatas se apresentam como líderes atenciosos, polidos, cheios de amor, porém, sua intenção é a pior possível. Por fora, sempre impecavelmente vestidos, beirando ao narcisismo. Por dentro, um trapo imundo. Por trás de seu carisma sedutor, um mentiroso contumaz, um manipulador calculista. Sempre agem prevendo a reação de quem pretendem vitimar. Para eles, a vida não passa de um tabuleiro de xadrez. Se alguém se puser em seu caminho, passam como rolo compressor, sem dó nem piedade.

Quem os vê chorar em suas performances de púlpito, não imaginam o ser frio que se esconde por trás daquela capa. Se flagrados, jogam com as palavras e os gestos para tentar inverter o jogo a seu favor. Sabem como se passar de vítima sem deixar rastro. Estão sempre cercados de cúmplices que se deixam ludibriar por seus convincentes argumentos, sendo capazes de colocar sua mão no fogo por seus líderes.

Cerque-se de todos os cuidados necessários. E não seja negligente com a sua família e aqueles a quem você ama. Todos podem estar correndo perigo. Ninguém jamais imaginou que Jim Jones fosse um psicopata que levaria mais de 900 fiéis ao suicídio de uma só vez. Portanto, antes de submeter-se a uma liderança, verifique seu histórico. Veja se tem o respaldo de sua família. Se não é adepto do emocionalismo barato e manipulador. 

Uma palavra aos líderes: seja prudente e não se precipite em ordenar alguém ao ministério. Observe-o exaustivamente. Verifique sua conduta em casa e fora da igreja. Cuidado para não colocar uma bomba relógio em posição de liderança na igreja. As estatísticas dizem que um em cada 25 brasileiros se enquadra neste perfil psicológico. Então, não custa nada redobrar a vigilância.

Aviso aos pais: adolescentes são sempre mais vulneráveis a este tipo de liderança extremamente carismática, mas sem escrúpulo e compromisso com a ética. Procure saber a quem seus filhos estão seguindo. Há casos em que pastores jogam os filhos contra os pais, exigindo deles absoluta obediência.

Não seja cúmplice de um pastor psicopata. Se verdadeiramente se importar com ele e seu séquito, tente convencê-lo a buscar ajuda psicológica. Se ele se recusar, denuncie-o. Antes que seja tarde demais...

Um Deus que odeia Seus inimigos não pode exigir que eu ame os meus

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Por Hermes C. Fernandes

Alguém, por favor, ajude-me a entender a desconcertante contradição entre a exigência do evangelho para que amemos aos nossos inimigos e a ira de Deus contra Seus próprios inimigos. Não devemos “imitar a Deus como filhos amados”? Como posso amar e perdoar a meus inimigos se Deus odeia os seus? Se isso não é uma contradição, então, temos que admitir que nossa interpretação é que deve estar equivocada. Ou será que Deus é do tipo que diz “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”? Como poderia exigir que déssemos de comer ao nosso inimigo, mas ao mesmo tempo ameaçar enviar Seus inimigos para serem torturados eternamente?

Proponho que deixemos de lado a paixão e examinemos friamente a questão.

Muitos de nossos pressupostos são frutos de equívocos passados de geração em geração, mas que ninguém tem coragem de confrontar e revisar. Jesus abriu-nos um importante precedente no Sermão da Montanha ao propor a revisão de alguns deles. Ao todo, são seis interjeições de Cristo que começam com “Ouvistes que foi dito (...) Eu, porém, vos digo”( Mt.5:21,27,31,33, 38,43). Jesus não propõe uma mudança nos mandamentos em si, mas na interpretação que se fazia deles. Uma coisa é o que lemos, outra é como lemos. Uma tem caráter objetivo, a outra, subjetivo. Por isso, Jesus perguntou ao doutor da lei: Que está escrito na lei? Como lês? (Lc.10:26).

Numa das interjeições, Jesus diz:

 “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus.”Mateus 5:43-44

De fato, em lugar algum das Escrituras encontramos instrução direta sobre “odiar os inimigos”. O mais próximo disso é o que lemos em Deuteronômio 33:27: O Deus eterno é a tua habitação, e por baixo estão os braços eternos; e ele lançará o inimigo de diante de ti, e dirá: Destrói-o.”Deduziu-se daí que Deus estivesse instruindo Seu povo a odiar a seus inimigos. Como poderíamos destruir a quem não odiássemos? Foi provavelmente baseado nisso que Davi compôs seu hino: “Persegui os meus inimigos e os destruí, e nunca voltei atrás sem que os consumisse” (2 Sm.22:38). Tenho a impressão que é também baseado nisso que muitos pregadores contemporâneos insistem com sua teologia revanchista, instigando o povo a desejar ver seus inimigos sob seus pés. Todavia, há que se levar em conta o contexto em que tanto Moisés quanto Davi se expressaram de tal maneira. Em ambos os casos, o povo de Israel estava envolvido em campanhas militares, e precisava de garantias de que seria bem-sucedido. Não se pode tomar tais palavras e aplicá-las num contexto pessoal. Sem contar que hoje vivemos sob a égide de uma nova aliança, onde o “olho por olho” foi substituído pelo “ofereça a outra face”.

Quando Jesus foi rejeitado em uma aldeia samaritana, dois dos Seus discípulos, Tiago e João, que também haviam sido discípulos de João Batista, propuseram que se orasse para que Deus enviasse fogo do céu e consumisse aquela gente. Eles chegaram a citar Elias, justificando nas Escrituras o seu espírito revanchista. Mas Jesus os repreendeu, dizendo: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lc.9:55-56). Não somos discípulos de Moisés, Davi ou Elias. Somos discípulos de Jesus, e compete ao discípulo buscar assemelhar-se ao seu mestre.

Ao denunciar o espírito revanchista do Seu povo e propor uma nova via, Jesus corria o sério risco de ser chamado de herege.  Jesus estava questionando uma pseudo-verdade que se estabelecera naquela cultura por vários séculos. Em vez de odiar os inimigos, Seus discípulos deveriam amá-los, caso contrário, jamais se pareceriam com Seu Pai que está nos céus.

Ora, se Deus requer que amemos a nossos inimigos, podemos inferir que Ele igualmente ame a Seus inimigos, sem exceção.  Se Deus ama somente aqueles que O amam, então Ele não é melhor do que o mais vil pecador. Pelo menos, esta é a conclusão inevitável a que chegamos ao lermos: Se amardes aos que vos amam, que mérito há nisso? Pois também os pecadores amam aos que os amam.E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que mérito há nisso? Também os pecadores fazem o mesmo” (Lc.6:32-33)?

O que dizer, então, do provérbio que diz “eu amo os que me amam” (Pv.8:17)? Fica subentendido que Deus só ame em reciprocidade ao amor que lhe é devotado. Trata-se, na verdade, de uma alegoria, onde a sabedoria é apresentada de maneira personificada. É a sabedoria que declara amar os que a amam. Não se pode colocar isso nos lábios de Deus.

O problema não termina aí. Há ainda outras passagens que parecem dizer que Deus só ame os que o amam. Veja, por exemplo, João 14:21, onde Jesus diz: Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.O que Jesus, de fato, está dizendo aqui é que aquele que O ama, o faz justamente por ser amado por Seu Pai. Logo, nosso amor a Deus resulta de Seu amor por nós, e não vice-versa. Ou não é isso que as Escrituras claramente dizem?: Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro” (1 Jo.4:19). O que nos confunde um pouco é o fato de que o grego tem certos tempos verbais que se perdem quando o texto é traduzido para o nosso idioma. Um deles, por exemplo, é o aroisto. Uma tradução possível para esse versículo seria: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama, e aquele que me ama é o que é amado de meu Pai...”

O fato inegável é que nada fizemos para merecer o Seu amor. E nada podemos fazer para alterar o que Ele sente por nós. Segundo Paulo, todos éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (Ef.2:5-6). Apesar de merecermos Sua justa ira, Ele ainda assim nos amou.

Em outra passagem, Jesus diz: “O Pai mesmo vos ama; visto que vós me amastes e crestes que eu saí de Deus” (Jo.16:27). Pode parecer que Ele estivesse afirmando que o amor do Pai por nós se deve ao fato de amarmos a Seu Filho. Porém, a verdade é exatamente o oposto. O amor que temos por Jesus é tão somente a evidência do amor com que o Pai nos ama.

Seu amor por nós independe de nosso amor por Ele. Paulo parece ter compreendido as implicações éticas por trás desta revolucionária verdade. Constrangido por este amor, o apóstolo decidiu igualmente amar às últimas consequências. Por isso, confessou: Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado” (2 Co.12:15). Será que o amor de um simples mortal superaria o amor de Deus? Se Paulo pôde amar mais do que o próprio Deus, então, proponho que passemos a cultuá-lo no lugar de Deus. É claro que isso não é possível. Ninguém jamais amou como Ele nos amou, ama e amará. Ainda que seja menos amado... Ainda que não O correspondamos.

E quanto à ira justa de Deus? A Bíblia parece clara ao afirmar que Deus ama a justiça, mas abomina a iniquidade. Sua ira é destinada a todos os que praticam a injustiça. Concluímos, precipitadamente, que Deus seja incapaz de amar àqueles sobre quem repousa a Sua ira.

Para corrigir nossa perspectiva, temos que entender que o termo “ira” não é antônimo de “amor”. O contrário de amor é indiferença. Mesmo a ira divina nada mais é do que uma faceta do Seu amor. Há mais amor numa única gota da ira divina do que em todo o oceano de amores humanos.

Por ser amor, Deus é incapaz de manter-se indiferente a qualquer de Suas criaturas. Amor não é apenas um dos Seus atributos, mas Sua essência. Ele não tem amor. Ele é amor! Mesmo na ira, Ele se lembra da misericórdia (Hc.3:2), razão pela qual não somos consumidos por Sua justa indignação contra o pecado (Lm.3:22). E Seu “ódio” pelo pecado é proporcional ao Seu amor pelo pecador. Ele odeia o pecado justamente pelo mal que causa à Sua criatura.

Enquanto Sua ira dura só um instante (Sl.30:5), Sua misericórdia dura para sempre. Tenho a impressão de que esta verdade foi invertida. Na compreensão de muitos, a misericórdia dura um ínfimo momento, enquanto Sua ira dura para sempre.

Seu amor tem sempre a palavra final. Nas palavras de Tiago, a misericórdia triunfa sobre o juízo”(Tg.2:13). O salmista garante: Não reprovará perpetuamente, nem para sempre reterá a sua ira (...) Mas a misericórdia do Senhor é desde a eternidade e até a eternidade” (Sl. 103:9,17).

Mesmo a rejeição provocada pelo pecado, a mais eloquente expressão da ira de Deus, não é eterna, tampouco, definitiva. Além de ter duração limitada, Sua ira também é devidamente dosada, pois Ele conhece a nossa estrutura: Por um breve momento te deixei, mas com grandes misericórdias te recolherei;com um pouco de ira escondi a minha face de ti por um momento; mas com benignidade eterna me compadecerei de ti, diz o Senhor, o teu Redentor” (Is. 54:7-8). Somente um Deus que agisse assim poderia exigir: “Dê a sua face ao que o fere, e farte-se de afronta. Pois o Senhor não rejeitará para sempre” (Lm.3:30-31).

Quando aplicado a Deus, o termo “ira” é sinônimo de “juízo”, “castigo” ou “correção”, e não de “ódio”. Ao corrigir-nos, Deus demonstra o quanto Se importa conosco, sem jamais desistir de amar-nos.

“Se os seus filhos abandonarem a minha lei e não seguirem as minhas ordenanças,se violarem os meus decretos e deixarem de obedecer aos meus mandamentos,com a vara castigarei o seu pecado, e a sua iniquidade com açoites;mas não afastarei dele o meu amor; jamais desistirei da minha fidelidade.”Salmos 89:30-33

Tal verdade ecoa por toda a Escritura. O escritor de Hebreus diz queo Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho” (Hb.12:6).E ainda:“se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados,mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários”(Hb.10:26-27).Portanto, não adianta tentar compensar nossos erros com sacrifícios, penitências e boas obras. A única coisa que nos resta é a correção dada por Aquele que nos ama infinitamente. Esse “ardor de fogo” nada mais é do que o juízo de Deus sobre o pecado. É o fogo que purifica a prata para que possa refletir perfeitamente a imagem do ourives. Sua justiça não é apenas retributiva, punitiva, mas, sobretudo, corretiva. Vai doer, porém, vai curar.

O que nos torna “inimigos de Deus” são nossas más obras (Cl.1:21). Mesmo depois de havermos sido convertidos a Ele, resta-nos resquícios do velho homem. Trata-se de um impostor que insiste em habitar em nossa carne. É este adversário que precisa ser consumido. Por isso, Tiago nos instrui a que nos despojemos de toda sorte de imundícia e de todo vestígio do mal (Tg.1:21). O fogo visa depurar-nos, eliminar tudo o que nos afasta de Deus, inflamar nossas consciências, constrangendo-nos e levando-nos ao arrependimento.

Para os que creem, basta olhar para cruz e o amor ali tão magnificamente expressado, e sua consciência é logo inflamada.  Todavia, nem todos se dispõem a crer. Para muitos, o fato de Deus ter amado o mundo a ponto de entregar Seu Filho para morrer por nós não passa de uma fábula arquitetada pela religião. Como, então, poderíamos atear fogo em suas consciências? Paulo nos apresenta a saída: “Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem”  (Rm.12:20-21). Brasas são amontoadas na consciência de quem é alvo de nosso amor sem merecê-lo.  Um santo constrangimento leva-o a perceber sua miséria e carência. E é ali, pela consciência, que nosso adversário começa a ser devorado pelas chamas da ira amorosa de Deus.  Foi este “fogo consumidor” que levou o centurião que crucificara a Jesus a concluir:“Verdadeiramente, este era o Filho de Deus” (Mt.27:54)! Pode-se rejeitar as informações contidas no Evangelho, mas qualquer ser humano é vulnerável a um gesto de amor sincero. O centurião jamais ouvira sobre o Evangelho. Não houve ali um assentimento intelectual. Porém, ouvir Jesus pedir que o Pai perdoasse aqueles que O crucificavam, e vê-lo tratar dignamente àquele moribundo crucificado à Sua direita, despertou no soldado romano uma profunda admiração, que levou-o à conclusão de que Aquele homem não era menos do que afirmavam Seus discípulos.

Não há recurso apologético mais poderoso do que o amor. Foi o próprio Jesus quem afirmou que o mundo nos reconheceria como Seus discípulos se tão-somente nos amássemos uns aos outros. Se quisermos, portanto, alcançar o coração dos que nos odeiam, não nos resta alternativa senão amá-los profundamente, da mesma maneira como Cristo nos amou quando ainda éramos Seus inimigos. E amar é muito mais do que nutrir um bom sentimento. Amar é servir, promover o bem, sem esperar absolutamente nada. Só assim, nos revelaremos ao mundo como “filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus” (Lc.6:35).

Politicamente correto ou apenas coerente?

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Por Hermes C. Fernandes 

“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados.” Provérbios 31:8 

Com quase dez anos de blogagem, já me acostumei a todo tipo de crítica, desde as mais ácidas até as consideradas “fogo amigo”. Porém, de um tempo para cá, há um tipo de crítica que tem me causado certo desconforto. Trata-se de um tipo de patrulhamento ideológico que reduz a importância de qualquer debate ao acusar o oponente de tentar ser “politicamente correto”. Afinal, o que caracterizaria tal posicionamento? E por que ele parece incomodar tanto? Haveria algum mérito ou demérito em ser politicamente correto? 

Deixando de lado os falsos escrúpulos, proponho que analisemos o fenômeno. A começar pela constatação de que a língua não é um instrumento neutro. Não me refiro aqui aos sujeitos que se utilizam da linguagem, mas aos próprios vocábulos, bem como as estruturas linguísticas e suas entonações como que carregados de sentidos culturais e políticos. 

Palavras nunca são apenas “palavras”, pois trazem consigo um peso que não pode ser ignorado. Elas podem edificar, como também podem destruir. Constroem pontes, mas também abrem abismos. Não é à toa que as Escrituras declaram que “a morte e a vida estão no poder da língua” (Provérbios 18:21). Tiago adverte: “Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim! Acaso pode sair água doce e água amarga da mesma fonte?” (Tiago 3:10-11). Paulo corrobora: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem” (Efésios 4:29). E Jesus arremata:“Digo-vos, pois, que de toda palavra fútil que os homens disserem, hão de dar conta no dia do juízo” (Mateus 12:36). Algum cristão sincero ousaria discordar destas passagens? 

Portanto, não se trata de ser puritano, ou de querer ser politicamente correto, mas de ser coerente com o espírito do evangelho. Não me parece correto, por exemplo, usar palavras de baixo calão para menosprezar quem pense diferentemente de nós. Quando Jesus usou expressões como “geração adúltera” (algo próximo de fdp) não estava xingando pecadores, mas expondo a hipocrisia dos religiosos de sua época. Jamais o vimos referir-se aos homossexuais com palavras chulas como veados, bichinhas, baitolas ou mariquinhas, nem às prostitutas como putas, vadias, quengas ou coisa parecida. Pelo contrário, Jesus tratava a todos com dignidade. 

Seria pedir muito que nos referíssemos a alguém como portador de necessidades especiais em vez de aleijado ou retardado, como dependente químico em vez de viciado, como homossexual em vez de bicha, como síndrome de down em vez de mongoloide, como afrodescendente em vez de crioulo, como umbandista em vez de macumbeiro? Seria pedir de mais que fôssemos, ao menos, educados? Não nos ocorre que usando determinadas palavras estejamos sendo cruéis e impingindo um sofrimento extra ao nosso semelhante? 

Frequentemente, a mera menção de algum episódio envolvendo racismo, homofobia, sexismo ou xenofobia é desqualificada com a ridícula acusação de estarmos sendo politicamente corretos. Se tratar as pessoas com deferência significa ser politicamente correto, então, devo admitir minha culpa. E confesso que não me deixarei inibir pelo patrulhamento ideológico. 

Acima de qualquer distinção ideológica ou doutrinária está o ser humano, imagem e semelhança de Deus, portanto, portador de dignidade intrínseca. 

Os inimigos do “politicamente correto” alegam que tudo não passa de censura disfarçada, um atentado à liberdade de expressão. Ambos os lados se dizem vítimas da patrulha ideológica. Mas qual dos dois faz o maior número de vítimas? Quem busca policiar sua própria fala para não ofender seus semelhantes ou quem se acha no direito de despejar seu ódio e preconceito nos outros através de suas palavras? 

O uso da língua em qualquer que seja o contexto é sempre político. Não há neutralidade. E como bem disse Jesus, “a boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 12:34). Basta observar o que se diz para saber o que se pensa. Um coração tomado de preconceito não conseguirá disfarçar por muito tempo. Cada piadinha ou comentário despretensioso acabará por revelar preconceitos dissimulados. Não se trata de coibir a liberdade de expressão. Ninguém está impedido de dizer o que pensa. Todavia, há que se tomar cuidado com a maneira como se expressa, para que sua liberdade não seja motivo de constrangimento a ninguém. Parafraseando Paulo, que nossa liberdade não seja motivo de tropeço a ninguém (1 Coríntios 8:9). 

De fato, a palavra molda o mundo. Nossa relação com a realidade é mediada pela palavra. Por isso, o poema da criação nos mostra Deus fazendo perfilar todos os animais para que o homem lhes desse nome. Nomear é exercer poder. Quem nomeia dita as regras do jogo. Como disse Alicia Dillon, “a palavra tem o poder: de nos tornar empoderadas ou indefesas, de ser fonte de certeza ou de dor. Alguém que age como se não pudéssemos falar por nós mesmas ou se refere a nós por um nome que não reconhecemos está usando a palavra para nos machucar, para roubar nossa subjetividade, para apagar nossa existência. Então, para continuar existindo, respondemos, interpelamos, machucamos. Usar a palavra é negociar os termos de nossa própria existência.”[1] 

Antes de classificar alguém ou um grupo, consideremos a maneira como gostaríamos de ser classificados. Como ensinou Jesus, “assim como quereis que os homens vos façam, do mesmo modo lhes fazei vós também” (Lucas 6:31). Esta é a regra de ouro que vale tanto para quem esteja à esquerda do espectro ideológico, quanto para quem esteja à direita.


[1] http://www.gnovisjournal.org/2011/11/10/do-i-need-to-say-it/

Há esperança para esta Sodoma!

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Por Hermes C. Fernandes

Anos atrás, por ocasião da VII Convenção de nossa igreja, preguei um sermão intitulado “Sodoma é aqui” (assista-o na íntegra aqui). Expus diante do olhar de uma multidão que a razão principal pela qual Deus julgou aquela sociedade não foi de ordem moral, como geralmente se crê. Hoje quero dar sequência àquela mensagem e abordar o propósito de Deus para a nossa sociedade.

É através do profeta Ezequiel que Deus revela qual foi a “gota d’água” que deflagrou o juízo sobre Sodoma e Gomorra:
“Ora, foi esta a maldade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão, e abundância de ociosidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado. Elas se ensoberbeceram, e fizeram abominação diante de mim; pelo que, ao ver isso, tirei-as do seu lugar.” Ezequiel 16:49-50
Repare que esta palavra veio como advertência ao povo de Jerusalém, a quem Deus se dirige como “irmã” de Sodoma. Embora aquele povo tenha se degradado moralmente, a ponto de tentar molestar os visitantes celestiais, o que mais aborreceu a Deus foram os pecados de ordem social. Talvez sua promiscuidade fosse apenas um dos sintomas de sua degeneração.

Do ponto de vista material, Sodoma era uma sociedade em franca ascendência, a ponto de atrair imigrantes como Ló e sua família. Porém, da perspectiva espiritual, Sodoma era uma sociedade miserável, atolada na soberba e no egoísmo.

Não há nada de intrinsecamente errado em ser próspero. Não foi disso que Deus a acusou. Seu erro era não saber compartilhar com os mais pobres e necessitados. Imagino que uns poucos acumulavam a maior parte da riqueza gerada por aquela sociedade, e a maioria, soma de todas as minorias, era desprezada e excluída do bolo. Deus não poderia fazer vista grossa àquilo.

Nem mesmo a intercessão de Abraão foi capaz de impedir que o juízo de Deus golpeasse a arrogância de seus habitantes.

Sodoma e sua irmã gêmea, Gomorra, entraram pra história como arquétipos de sociedades fadadas a serem consumidas pelo ardor do zelo divino.

Séculos se passaram, e agora Deus tratava de julgar Seu próprio povo. Jerusalém que se via como a cidade do grande Rei, terra santa, povo exclusivo, também se degenerara e seguia a passos largos para um fim semelhante ao de Sodoma. Para que se sentisse bem consigo mesma, Jerusalém tinha como referência de iniquidade duas outras sociedades, uma separada pelo tempo e a outro pelo espaço. Sodoma já não exisita há vários séculos. Era apenas uma referência histórica. Mas bem perto dali, havia outra cidade reputada pelo moradores de Jerusalém como merecedora do juízo divino. Refiro-me à Samaria, nova capital de Israel, o reino do norte. No imaginário popular, Samaria era símbolo de perversão, de impureza, de injustiça. “Não somos como eles!”, diria um judeu daquele tempo.

Deus, então, resolve tocar em sua maior ferida: o orgulho:
“Samaria não cometeu metade de teus pecados. Multiplicaste as tuas abominações mais do que elas, e justificaste a tuas irmãs, com todas as abominações que fizeste. Sofre a tua vergonha, tu que julgaste a tuas irmãs, pelos teus pecados, que cometeste mais abomináveis do que os delas; mais justas são do que tu. Envergonha-te logo também, e sofre a tua vergonha, pois justificaste a tuas irmãs.”Ezequiel 16:51-52
Perto de vocês, os pecados de Sodoma e Samaria são fichinhas! Vocês deveriam se envergonhar! Comparadas a vocês, elas são justas! Era exatamente isso que Deus estava dizendo.

Ezequiel não foi o único profeta a tocar nesta ferida. Veja o que diz Jeremias:
“Porque maior é a iniqüidade da filha do meu povo do que o pecado de Sodoma, a qual foi subvertida como num momento, sem que mãos lhe tocassem.”Lamentações 4:6
Chegou a um ponto em que Jerusalém tornou-se a réplica de Sodoma, ou mesmo a sua extensão. Basta dizer que em Apocalipse lemos que a cidade onde Jesus fora crucificado “espiritualmente se chama Sodoma e Egito” (Ap. 11:8). Triste quando nos tornamos naquilo que tanto combatemos. Jerusalém reencarnou Sodoma!

Tenho a nítida impressão de que a igreja cristã deste século está incorrendo no mesmo erro dos moradores de Jerusalém. Achamo-nos tão santos, que sentimo-nos confortáveis diante da degradação que há no mundo, seja de ordem moral ou social. Oramos como aquele fariseu da parábola de Jesus, que ficava se comparando com o publicano que orava ao seu lado, dizendo: Não sou como ele, Senhor!

Paulo já havia detectado esta tendência na igreja dos coríntios, quando os repreendeu dizendo“Geralmente se ouve que há entre vós imoralidade, e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios…” (1 Co.5:1a). E aos crentes judeus em Roma, ele escreve: “Portanto, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, pois te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro, porque tu que julgas, fazes o mesmo (…) Tu, ó homem, que julgas os que fazem tais coisas, pensas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus? (…) e confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instruidor dos néscios, mestre de crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na lei; tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós” (Rm.2:1,3,19-24).

Como a igreja ousa apontar as mazelas do mundo, se ela mesma tem se tornado naquilo que tanto condena? O fato de Deus insistir em fazer da igreja o cenário onde Sua glória se manifesta só complica as coisas para ela. Não significa que Deus esteja endossando seus descaminhos.
“Diz o Senhor: Este povo se aproxima de mim com a sua boca, e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim. O seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em coisa aprendida por rotina. Portanto continuarei a fazer uma obra maravilhosa no meio deste povo, uma obra maravilhosa e um assombro; a sabedoria dos seus sábios perecerá, e o entendimento dos seus prudentes se esconderá. Ai dos que profundamente escondem do Senhor o seu propósito, e fazem as suas obras às escuras, e dizem: Quem nos vê? E quem nos conhece? Vós a tudo perverteis!” Isaías 29:14-16a
Quando caminhou entre os homens, Jesus escolheu Cafarnaum para morar e para ser cenário da maioria dos Seus milagres. Antes que seus moradores se sentissem melhores do que os de outras vilas, Jesus advertiu:
“E tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos; porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os prodígios que em ti se operaram, teria ela permanecido até hoje. Porém eu vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para os de Sodoma, do que para ti.”Mateus 11:23-24
É claro que isso não significa que Cafarnaum seria alvo de bolas de fogo vindas do céu, como ocorreu com Sodoma. Porém, Deus não faria vista grossa para com seus pecados. Aquela geração que presenciou tão grandes sinais seria julgada por Deus com rigor maior do que o usado para com os habitantes de Sodoma. Tal rigor também se aplicaria a qualquer sociedade que, em tendo a oportunidade de ouvir a verdade do Evangelho, a recusasse deliberadamente. Veja a advertência que Jesus faz ao comissionar Seus discípulos:
“Quando entrardes numa cidade, e vos receberem, comei do que vos oferecerem. Curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: É chegado a vós o reino de Deus. Mas quando entrardes numa cidade, e não vos receberem, saindo por suas ruas, dizei: Até o pó que da vossa cidade se nos pegou sacudimos sobre vós. Sabei, contudo, que já o reino de Deus é chegado a vós. Digo-vos que mais tolerância haverá naquele dia para Sodoma do que para aquela cidade.”Lucas 10:8-12
Cada geração e cada sociedade serão julgadas de acordo com a oportunidade que houver recebido. Este princípio está claro nas palavras do próprio Cristo: “A qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou muito mais se lhe pedirá” (Lc.12:48b). Em Lucas 11:32, Jesus admoesta àquela geração, comparando sua postura ante àquilo que havia recebido, com a postura dos ninivitas contemporâneos de Jonas: “Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração, e a condenarão; pois se converteram com a pregação de Jonas, e aqui está quem é maior do que Jonas.” Portanto, não somos melhores por aquilo que recebemos, porém, seremos mais cobrados por isso. No dia do juízo, quando Cristo assentar-se para julgar os homens, todas as gerações convergirão diante d’Ele para prestar-Lhe contas. O que temos feito com aquilo que d’Ele recebemos?

Antes de apontar o dedo para os que se acham ‘fora da igreja’, como se fôssemos melhores do que eles, lembremo-nos que o juízo de Deus começa pela Sua própria casa (1 Pe.4:17). Diante da luz, nossa pretensa santidade será exposta. Nossa vaidade sucumbirá. Nossos argumentos serão calados.

O que nos torna piores do que aqueles que julgamos ser os remanescentes de Sodoma é justamente o fato de não nos importamos com eles. Só haverá esperança caso um deles se tornem um de nós. É assim que pensam muitos de nós.

Há esperança para Sodoma?


Ora, se Sodoma tornou-se arquétipo da sociedade humana como um todo, em franca decadência moral, ética e social, haveria alguma esperança para ela?

Em Judas 1:7 lemos que Sodoma e Gomorra “foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno.” Seria isso sinônimo de total desesperança? Como apagar um fogo eterno? Como impedir que toda uma sociedade seja consumida por ele? Haveria alguma esperança para os habitantes de Sodoma?

Primeiro, precisamos descobrir a natureza deste “fogo”. Não se trata de fogo literal, pois se fosse, ainda veríamos a fumaça de Sodoma e Gomorra. “Fogo” é uma metáfora para a ira justa de Deus contra a iniquidade. Este furor divino não visa aniquilar, mas purificar. Quando diz que o fogo é eterno não está se referindo à duração de suas chamas, mas à duração de seu efeito. O sábio pregador de Eclesiastes afirma que “tudo quanto Deus faz durará eternamente” (Ecl.3:14). Nada que tenha sua origem em Deus foi feito para acabar. O fogo é eterno porque tem sua origem em Deus, e seus efeitos são irreversíveis.

Isso, porém, não significa que a ira de Deus permaneça sobre alguém ou sobre uma sociedade eternamente. O salmista declara veementemente: “Porque a sua ira dura só um momento” (Sl. 30:5). Em contrapartida, “a sua misericórdia dura para sempre” (Sl.106:1). Também lemos que“compassivo e piedoso é o Senhor, lento para a cólera, e abundante em amor. Não repreenderá perpetuamente, nem para sempre conservará a sua ira” (Sl.103:8-9). Às vezes parece que temos pregado o oposto disso, como se a ira de Deus durasse para sempre, enquanto que a Sua misericórdia abrangesse apenas um curto espaço de tempo.

Como, então, podemos explicar algumas passagens como as que se seguem?

“E outra vez disseram: Aleluia! E a fumaça dela sobe para todo o sempre” (Ap.19:3). Esta passagem fala do juízo que desceria sobre a Grande Babilônia, nome pelo qual Jerusalém é conhecida no livro de Apocalipse. No ano 70 d.C. a cidade foi sitiada, invadida e incendiada pelo romanos. Dizer que sua fumaça subiria para sempre é uma hipérbole que visa enfatizar o fim dramático que teria a cidade que rejeitara a paz oferecida por Jesus. Não se pode fazer uma leitura literal do texto. Se assim fosse, ainda veríamos a fumaça enegrecendo os céus da Palestina.

Outra passagem interessante é a que diz: “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que a minha ira e o meu furor se derramarão sobre este lugar, sobre os homens e sobre os animais, e sobre as árvores do campo, e sobre os frutos da terra; e acender-se-á, e não se apagará” (Jer.7:20). Aqui Deus adverte os moradores de Jerusalém para que se arrependam, porque o juízo era iminente. Este texto deixa claro que o “fogo” é, de fato, uma alusão à ira de Deus contra a injustiça dos homens.

Noutra passagem encontrada no livro de Isaías, lemos: “Nem de noite nem de dia se apagará; para sempre a sua fumaça subirá; de geração em geração será assolada; pelos séculos dos séculos ninguém passará por ela” (Is. 34:10). Neste texto em particular, Deus adverte às nações inimigas de Israel, entre elas, Edom. É dito que seus ribeiros se transformariam em piche, e o seu pó em enxofre (v.9). Mais uma vez estamos diante de uma hipérbole, figura de linguagem fartamente encontrada nas profecias, sobretudo, na literatura apocalíptica dos judeus.

O próprio Jesus fez uso desta linguagem, tão familiar aos Seus contemporâneos. Ele diz: “Vim lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está aceso?” (Lc.12:49). Seria até cômico fazer uma leitura literal aqui. Imagine: Jesus, um incendiário!

Mesmo o juízo traz em seu bojo a misericórdia divina. Não confundamos “ira” com “ódio”, que é o oposto de amor. Mesmo que esteja irado devido à injustiça que temos praticado, Ele jamais deixou de nos amar. Ira tem a ver com a reação de Deus ante à injustiça. Amor tem a ver com Sua essência. Uma coisa é o que Ele sente, outra o que Ele é. Deus não é ira. Deus é Amor!

Nenhuma sociedade está irremediavelmente perdida. Nem mesmo Sodoma, seja a de ontem, ou seja a de hoje. Retornando à primeira passagem que consideramos nesta reflexão, encontramos uma inusitada promessa:
Todavia, farei voltar os cativos delas; os cativos de Sodoma e suas filhas, os cativos de Samaria e suas filhas, e os cativos do teu exílio entre elas, para que sofras a tua vergonha, e sejas envergonhada por tudo o que fizeste, dando-lhes tu consolação. Quando tuas irmãs, Sodoma e suas filhas, tornarem ao seu primeiro estado, e Samaria e suas filhas tornarem ao seu primeiro estado, também e tuas filhas tornareis ao vosso primeiro estado. Nem mesmo Sodoma, tua irmã, foi mencionada pela tua boca, no dia das tuas soberbas” (Ez. 16:53-56).
Quem diria que um dia até Sodoma seria restaurada, voltando ao seu primeiro estado? A execução da ira divina tem seu papel redentivo. Mas quem tem a última palavra é a misericórdia. Por isso Tiago declara: “A misericórdia triunfa sobre o juízo!” (Tg.2:13b).


Ubuntu, o legado e a demonização da cultura negra

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Por Hermes C. Fernandes

“Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra.” 
Bob Marley

Anos atrás, uma de nossas congregações resolveu fazer uma apresentação na Sede da Reina homenageando a cultura negra. Mulheres vestidas a caráter começaram a dançar ao ritmo dos tambores, bem ao estilo africano. Por ser uma festa, tínhamos a presença de irmãos de muitas igrejas. Nem todos demonstravam o correto discernimento do que ocorria ali. Não demorou muito para que se ouvissem murmurinhos e expressões do tipo "tá amarrado!"[1] Aquilo me deixou tão incomodado, que ao término da apresentação (que incluía um grupo de capoeira), vi-me na obrigação de chamar a atenção dos que murmuravam. 

Por que insistimos em demonizar a cultura africana? Suas danças, música, folclore e tradições são entendidos como expressões malignas. Nossa contradição, todavia, é exposta ao nos referirmos às tradições religiosas nórdicas, celtas, anglo-saxônicas e greco-romanas como mitologia. Quanto preconceito ainda há em nós, quer admitamos ou não.

A única coisa que poupamos da cultura africana é a sua comida, desde que não seja servida por uma baiana de roupa branca e turbante. Recentemente, a comunidade candomblecista ganhou a liminar que proíbe evangélicos de venderem acarajé, uma comida típica da Bahia como "bolinho de Jesus". O acarajé foi tombado como patrimônio cultural brasileiro, e é uma manifestação cultural da culinária baiana que tem sua origem na religiosidade candomblecista como o alimento de Iansã. Quando um patrimônio cultural é tombado, seja material ou imaterial, a ideia é expressar sua importância para a construção de uma identidade cultural dos grupos sociais. O acarajé não é apenas uma comida de oferenda a uma entidade cultuada numa religião de matiz africano, mas um meio de garantir a sobrevivência de famílias que cultivam seus saberes culinários de geração em geração. Quando uma baiana arma seu tabuleiro na rua, sua intenção não é a de fazer oferendas a um orixá, mas tão-somente o de sustentar sua família. Sem contar que uma boa parte destas baianas é negra, pobre e arrimo de seus lares. Não é a alteração do nome da iguaria que vai santificá-la para ser consumida por cristãos evangélicos sem que isso lhes pese na consciência. À luz das Escrituras, o que santifica qualquer alimento é a gratidão com que o consumimos.[2] 

Nunca encontrei uma única passagem bíblica em que Jesus ou os apóstolos se referissem aos espíritos malignos com nomes de divindades dos panteões pagãos. Jamais flagrei os apóstolos expulsando um espírito de Júpiter ou Diana. Então, por que identificamos as divindades cultuadas nos terreiros como demônios? Por que não podemos enxergá-las apenas como seres mitológicos, como fazemos com Zeus, Thor e Hermes?

Responda-me com sinceridade: Você iria ao cinema prestigiar um filme intitulado "Xangô de Ife", onde um personagem negro, portando um machado de dois gumes, vindo de Aruanda, controla os raios e os trovões? Certamente que um filme desses seria execrado por muitos cristãos. Mas, se o filme se chama Thor, deus nórdico dos trovões, a quem se sacrificavam homens, mulheres e crianças, pendurando-os em carvalhos, protagonizado por um louro bonitão de olhos azuis, é assistido sem o menor peso de consciência. Enquanto para Xangô são sacrificados pombos e galinhas de angola, para Thor eram sacrificados seres humanos. 

Que haja espíritos malignos que se aproveitam da superstição para se instalar em certas culturas, não me atrevo a duvidar. Inclusive por trás de muita devoção popular católica e da velada idolatria evangélica. Tais espíritos são ávidos por adoração, e para isso, escondem-se por trás de figuras mitológicas e de crendices de qualquer credo. Tenho a forte impressão de haja demônios ocultos em muitas das práticas evangélicas de hoje em dia, principalmente quando envolvem os chamados "pontos de contato". De acordo com a espiritualidade proposta no evangelho, o culto genuíno é aquele que prescinde de objetos, sejam da devoção afro-brasileira como patuás, banhos mágicos e etc., sejam do espírito judaizante imperante em muitas igrejas como shofar, arcas da aliança, montes sagrados e etc. O culto que agrada a Deus se dá em Espírito e em Verdade,[3] e não em superstições e amuletos.

Proponho que tratemos os elementos de qualquer culto em seu aspecto mitológico, sem, contudo, faltar-lhes o devido respeito. Mas que, em contrapartida, mantenhamos puro o culto que prestamos a Deus, sem nos apropriar indevidamente de qualquer um desses elementos, nem para o mal, nem para o bem. O sincretismo atenta contra a pureza do culto prestado. Isso vale para os cultos judaico, nórdico, indígena e, obviamente, africanos. 

Chega a ser um desrespeito a maneira como algumas igrejas se apropriam indevidamente de elementos pertencentes a outros credos. Um desrespeito à nossa própria fé e à fé alheia. Refiro-me a elementos estritamente cultuais, e não os culturais de modo geral. Não precisamos nos privar da boa música, da comida e de costumes inofensivos que já foram absorvidos pela nossa cultura. O que seria da música popular brasileira sem a contribuição da cultura africana? 

Devemos a ela o nosso samba, a bossa nova, o axé, e tantos outros ritmos que embalam nossas festas e enchem nossos corações de alegria. Aliás, a maior parte da música do ocidente tem os dois pés no continente africano: o blues, o rhythm and blues, o jazz, o rock’n roll, o rap, o funk, o soul e o gospel.

Viva a cultura negra! Muito de sua mitologia encerra importantes arquétipos que revelam a natureza humana em toda a sua ambiguidade. Não os reconhecemos como deuses, mas também não os chamamos de demônios. Demônios são os que se escondem por trás de todo engano, ódio e preconceito, ainda que para isso se façam passar até por Jesus Cristo.

Ubuntu

Ubuntu [4] é uma filosofia de origem africana que expressa a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade. Trata-se de um conceito amplo sobre a essência do ser humano e a maneira como deve se comportar em sociedade. Este conceito foi uma importante ferramenta na luta contra o regime Apartheid na África do Sul. Nelson Mandela inspirou-se nele para conduzir a política de reconciliação nacional, que uniu várias etnias em torno de um projeto que visava transformar aquele país num exemplo de superação de conflitos étnicos. De acordo com o manifesto do movimento criado por Mandela em 1944, “o africano quer o universo como um todo orgânico que tende à harmonia e no qual as partes individuais existem somente como aspectos da unidade universal.”[5]

De acordo com o arcebispo anglicano Desmond Tutu, autor de uma teologia ubuntu “a minha humanidade está inextricavelmente ligada à sua humanidade.”[6] Em seu livro "No Future Without Forgiveness" (em português: "Sem perdão não há futuro"), Tutu explica: “Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível para as outras, apoia as outras, não se sente ameaçada quando outras pessoas são capazes e boas, com base em uma autoconfiança que vem do conhecimento de que ele ou ela pertence a algo maior que é diminuído quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando são torturadas ou oprimidas.”[7] Tudo isso, porque, “uma pessoa é uma pessoa por intermédio de outras pessoas”[8]. O ser humano solitário é uma contradição. Diferente da lógica cartesiana que tem conduzido o Ocidente por séculos, em vez de “penso, logo existo”, a filosofia africana Ubuntu diz: “Existo porque pertenço.” Ubuntu, portanto, implica compaixão, comunhão e abertura de espírito ao outro, opondo-se ao narcisismo e ao individualismo tão predominante nas sociedades ocidentais.

A educadora sul-africana Dalene Swanson, professora da University of British Columbia, em Vancouver, Canadá, fala o seguinte a respeito do ubuntu:
“Diferentemente da filosofia ocidental derivada do racionalismo iluminista, o ubuntu não coloca o indivíduo no centro de uma concepção do ser humano. Este é todo o sentido do ubuntu e do humanismo africano. A pessoa só é humana por meio de sua pertença a um coletivo humano; a humanidade de uma pessoa é definida por meio de sua humanidade para com os outros: (…) o valor de sua humanidade está diretamente relacionado à forma como ela apoia ativamente a humanidade e a dignidade dos outros; a humanidade de uma pessoa é definida por seu compromisso ético com sua irmã e seu irmão.”[9] 
Há uma história que circula na internet atribuída a filosofa e jornalista Lia Diskin, que teria sido contada durante o Festival Mundial da Paz ocorrido em Florianópolis em 2006, e que exemplifica eloquentemente o sentido da filosofia Ubuntu:
“Um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Como tinha muito tempo ainda até o embarque, ele então propôs uma brincadeira para as crianças, que achou ser inofensiva. Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí, ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro. As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", imediatamente, todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e os comerem felizes. O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou por que elas tinham ido todas juntas, se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?" Ele ficou pasmo. Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo...” 
Como é difícil para alguém acostumado ao espírito competitivo que rege as culturas consideradas mais avançadas do mundo, pelo menos do ponto de vista econômico, entender este tipo de comportamento baseado na cooperação, em que ninguém precisa perder para que outro ganhe. Segundo o espírito de Ubuntu, as pessoas não devem buscar levar vantagem pessoal em detrimento do bem-estar do grupo. A felicidade de um não pode custar a infelicidade dos demais. Para que uma pessoa seja plenamente feliz será preciso que todas do grupo se sintam igualmente felizes. E não é isso que dizem as Escrituras? O apóstolo João afirma que nossa alegria só será completa num ambiente de comunhão, onde a alegria de um completa a alegria do outro.[10] Ninguém é feliz sozinho. Por isso, Paulo não se incomodou em suplicar: “Completem a minha alegria, tendo o mesmo sentimento, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude.”[11] 

Estamos conectados uns com os outros e essa relação estende-se aos que vieram antes de nós e aos que ainda hão de nascer. Fomos convidados por Jesus a tomar assento à mesa do reino de Deus, ao lado de Abraão, Isaque e Jacó e de toda a sua descendência espiritual. Formamos todos uma única família, a família humana, reconciliados com Deus e uns com os outros por meio de Seu Filho Jesus Cristo. Vemos, então, que o legado que recebemos dos povos africanos vai muito além da música, da comida, das crenças, do folclore. Fomos agraciados com conceitos desta envergadura, capazes de demolir estruturas injustas como a do Apartheid.




[1]Bordão típico usado no neopentecostalismo que significa a neutralização de qualquer investida por parte de entidades demoníacas.
[2]Porque toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças. Porque pela palavra de Deus e pela oração é santificada” (1 Timóteo 4:4-5).
[3]João 4:24
[4] Ubuntu é uma noção existente nas línguas zulu e xhosa - línguas bantu do grupo ngúni, faladas pelos povos da África Subsaariana.
[5]Nelson Mandela and the Rainbow of Culture, Anders Hallengren, Nobelprize.org, site oficial do Prêmio Nobel.
[6] All you need is ubuntu (28 de setembro de 2006).
[7]TUTU, Desmond. No future without forgiveness, New York: Image Books, 2000.
[8]TUTU, Desmond, Deus não é cristão, Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2012, pg. 41
[9]Fonte: site “Ensinar História” de Joelza Esther Domingues. http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/ubuntu-o-que-a-africa-tem-a-nos-ensinar/
[10] 1 João 1:3-4 – “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco (...) Estas coisas vos escrevemos, para que a vossa alegria seja completa.”
[11]Filipenses 2:2

Por que CONSCIÊNCIA NEGRA em vez de simplesmente CONSCIÊNCIA HUMANA?

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Por Hermes C. Fernandes

Basta chegar a semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra para nos depararmos com inúmeros protestos nas redes sociais apelando a uma frase atribuída ao ator negro americano Morgan Freeman: “O dia em que pararmos de nos preocupar com consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com a consciência humana, o racismo desaparece.” Logo, não faria sentido dedicar um dia do ano à consciência negra. Será que esta linha de raciocínio está correta? Bastaria parar de falar de um assunto para que ele perdesse a importância e desaparecesse? Bem, parece que Martin Luther King, o pastor protestante que liderou a luta pelos direitos civis dos negros americanos, discorda veementemente: “Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que importam. É agradável esperar que as coisas sumam ignorando-as, mas chega um tempo em que se torna necessário dizer “Pare! Isso é inaceitável!”.

Interessante ressaltar que nunca vi ninguém protestando no "DIA DAS CRIANÇAS", alegando que somos todos HUMANOS, independentemente da idade. Nunca vi ninguém protestando no "DIA INTERNACIONAL DA MULHER", alegando que independentemente do gênero, somos todos humanos. Então, não entendo a razão que leva alguns a protestar contra o DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA. De fato, somos todos humanos, mas nenhuma etnia sofreu tanto nos últimos séculos do que a negra. Digo, sofreu e ainda sofre nas mãos de outros pertencentes à mesma raça, a humana. Morgan Freeman que me perdoe, mas deixar de falar de um assunto não vai fazê-lo desaparecer.

Não precisamos de um dia dedicado à consciência humana, assim como não precisamos celebrar o Dia do Adulto ou o Dia do Homem, ou mesmo o Dia do Orgulho Hétero (sim, não vejo nada de errado em que os homossexuais tenham um dia para celebrar a luta por seus direitos civis). E respaldo meu posicionamento nas Escrituras.

Antes de citar o trecho bíblico no qual me apoio, devo salientar que creio que a igreja de Cristo nada mais é do que o embrião da nova humanidade. Portanto, muitas das regras apostólicas que deveriam ser seguidas pelas igrejas, são igualmente pertinentes na organização social do novo mundo sonhado pelos profetas.

Tomando o corpo humano como analogia, Paulo diz que os membros que têm sido menos honrados, a esses deveríamos honrar muito mais, enquanto que, os que têm sido prestigiados ao longo da história não teriam necessidade disso. Segundo a lógica do apóstolo, isso certamente contribuiria para que não houvesse divisão no corpo, de modo que se corrigisse uma injustiça, e que todos tivessem igual cuidado uns dos outros. “De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1 Coríntios 12:26).

À luz disso, alguém ainda insistiria em dizer que precisamos celebrar o DIA DO HOMEM, ou o DIA DA CONSCIÊNCIA BRANCA, ou o DIA DO ADULTO ou do ORGULHO HÉTERO? Chega a ser cômico!

Devemos honrar a quem tem sido desprezado, roubado em sua honra e dignidade, visto que os demais não necessitam disso. Ou você conhece alguém que deixou de ser empregado por ser branco? Ou alguém que teve seu salário reduzido por ser homem? Ou foi privado de algum direito por ser hétero? 

Como diz a profecia, “todo vale será exaltado, e todo o monte e todo outeiro será abatido; e o que é torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará. E a glória do Senhor se manifestará, e toda a HUMANIDADE juntamente a verá, pois a boca do Senhor o disse” (Isaías 40:4-5).  Nosso trabalho é “preparar o caminho do Senhor”, isto é, nivelar o terreno, dar voz aos que não têm voz, tornar visíveis os invisíveis, honrar os que foram desonrados ao longo do processo histórico, corrigindo assim a injustiça cometida pelas gerações que nos antecederam.  

O Dízimo já era...

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Por Hermes C. Fernandes


Muito se tem discutido sobre a legitimidade do dízimo durante o regime da Nova Aliança. Para muitos, com o fim da Lei, encerra-se também a obrigatoriedade do dízimo. Vamos deixar as paixões de lado, e examinar o assunto com o coração aberto, a despeito de todo abuso perpetrado por líderes inescrupulosos cujo único afã é locupletar-se em cima dos incautos.

De fato, o dízimo figura nas Escrituras Sagradas mesmo antes da instituição da Lei. Portanto, o Dízimo já era praticado muito antes de Moisés receber as tábuas no Sinai. O escritor de Hebreus diz que o patriarca Abraão separou o dízimo de tudo, e o entregou a Melquisedeque, sacerdote de Salém. Nesta passagem é dito que o fato de Abraão lhe haver entregue o dízimo demonstrava o quão grande era Melquisedeque (Hb.7:4). Portanto, tributar-lhe o dízimo de tudo era o mesmo que reconhecer sua superioridade. Abraão, o menor, foi abençoado por Melquisedeque, o maior (7:7).

Ainda não havia templo em Jerusalém, nem mesmo havia sido instituído o sacerdócio levítico, mas isso não impediu que o patriarca entregasse seus dízimos. Portanto, cai aqui a idéia de que os dízimos só valiam enquanto houvesse um templo para ser mantido. O Dízimo já era praticado muitos antes de haver templo em Jerusalém.

Somente séculos depois, com a instituição da lei, os filhos de Levi foram autorizados por Deus a “tomar o dízimo do povo, isto é, de seus irmãos” (v.5). Neste caso,“recebem dízimos homens que morrem” (sacerdotes levíticos), mas no caso de Melquisedeque, figura de Cristo, “os recebe aquele de quem se testifica que vive” (v.8). Portanto, onde houver sacerdócio, ali também haverá quem receba dízimos.

Alguém poderá objetar dizendo que não há nenhuma palavra sobre o dízimo no Novo Testamento. Ledo engano! O próprio Jesus o endossou ao censurar a hipocrisia dos religiosos de Seu tempo:
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas negligenciais o mais importante da lei, a justiça, a misericórdia e a fé. Devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas” (Mt.23:23).
Mais claro que isso? Impossível. Jesus não os censurou por darem o dízimo, e sim por omitirem aspectos mais importantes da lei. Deveriam ser zelosos tanto na entrega do dízimo, quanto na observação da justiça, da misericórdia e da fé. E repare quão detalhistas eles eram. Davam o dízimo até do tempero da comida!

Pode até parecer legalismo de Sua parte, mas Jesus declarou que se a nossa justiça não excedesse a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entraríamos no reino dos céus (Mt.5:20).

A graça nos ensina a ir muito além do dízimo!

Por que Paulo e os demais apóstolos não precisaram ensinar sobre o dízimo? Porque para os cristãos primitivos, dar o dízimo era fichinha. Eles aprenderam a ir muito além do dízimo.

Também convém salientar que se os apóstolos fossem contrários ao dízimo, eles teriam combatido-o com a mesma veemência com que combateram a circuncisão (também anterior à Lei). Temos até uma epístola dedicada quase que exclusivamente a combater a circuncisão (Gálatas), mas não encontramos uma única palavra contra a prática do dízimo.

Os mesmos que hoje combatem o dízimo deveriam reconhecer que se o Evangelho chegou até nós, foi graças à fidelidade daqueles que deram muito mais do que o dízimo, patrocinando empreendimentos missionários ao redor do globo.

Entregar 10% de nossos rendimentos é dar o que já é esperado. Jesus nos ensinou a transpor os limites das expectativas que nos são postas.

Veja o que Ele diz sobre isso:
“Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser demandar contigo e tirar-te a túnica deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas” (Mt.5:39b-41).
Este princípio também se aplica à questão das contribuições na igreja. E podemos ver um exemplo disso na segunda epístola de Paulo aos Coríntios, onde o apóstolo dos gentios dá testemunho da surpreendente atitude dos irmãos das igrejas da Macedônia. Devido à sua pobreza, Paulo quis poupá-los de ter que enviar ofertas para a igreja em Jerusalém. Porém eles imploraram para participarem desse privilégio (2 Co.8:4).
“Sua profunda pobreza transbordou em riquezas de sua generosidade. Pois segundo as suas posses ( o que eu mesmo testifico), e ainda ACIMA DELAS, deram voluntariamente (...) E não somente fizeram como nós esperávamos, mas a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor, e depois a nós, pela vontade de Deus” (vv.2b-3,5).
Entregar o dízimo é dar de acordo com a nossa posse.

Uma das coisas que me causam admiração no dízimo é que ele nivela a todos dentro da congregação. Ninguém dá mais, nem menos. Tanto o dízimo de um empresário bem-sucedido, quanto o de uma empregada doméstica têm o mesmo valor, a décima parte.

Porém, somos desafiados pelo Senhor a sermos imitadores das igrejas da Macedônia, transpondo a lei do Dízimo, e dando além de nossas posses.

Interessante que Paulo dá testemunho da generosidade dos Macedônios em sua carta aos Coríntios, e ao mesmo tempo diz que se gloriava da prontidão dos Coríntios perante os Macedônios (9:2). Generosidade e prontidão devem andar de mãos dadas.

Se deixarmos a obra de Deus por último, talvez não sobre nada. Temos que aprender a colocar o reino de Deus em primeiro lugar. Nossas contribuições, sejam a título de dízimo ou de oferta, devem ser preparadas de antemão, e que sejam expressão de generosidade, e não de avareza (v.5).

Muita gente dá o dízimo como o desencargo de consciência. Acham que já estão fazendo muito. O dízimo deve ser considerado o piso, e não o teto de nossas contribuições.

A mesma passagem usada pelos pregadores para exortar a igreja a ser fiel nos dízimos, também menciona outro tipo de contribuição que estava sendo sonegado. Repare no que diz a passagem em questão:
“Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas” (Ml.3:8).
Nem todo mundo está devidamente familiarizado com a expressão “oferta alçada”. A maioria de nós nem sequer ouviu falar disso. Oferta alçada é qualquer oferta cujo valor exceda o valor do dízimo.

O que os cristãos macedônios estavam fazendo era cumprir este mandamento. Oferta alçada é aquela que vai além de nossas posses.

O Dízimoé o mínimo que um cristão pode fazer pela manutenção das obras realizadas pela igreja.

Dele dependem aqueles que vivem do Evangelho. Ministros que se dedicam integralmente à igreja, e quem têm filhos para criar, aluguel de casa para pagar, contas, compras, etc. Alguns são obrigados a cumprir jornada dupla, porque a igreja não atende às suas necessidades. Não há nada de mal nisso. O próprio Paulo teve que fazer tendas para garantir sua subsistência por um tempo. O problema é que, ao trabalhar fora, o pastor já não poderá dedicar cem por cento do seu tempo ao rebanho.

O padrão estabelecido pelas Escrituras está claro:
“Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho” (1 Co.9:14).
Veja ainda a recomendação de Paulo a Timóteo:
“Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e no ensino. Porque diz a Escritura: Não atarás a boca do boi quando debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário” (1 Tm.5:17-18).
Se as igrejas abolissem os dízimos, e contassem exclusivamente com as ofertas voluntárias, como se manteriam e fariam planos para o futuro?

A vantagem do dízimo é a sua regularidade. Dá para se fazer um planejamento, comprar uma propriedade para igreja, contratar novos funcionários, enviar missionários, etc., porque se tem um orçamento fixo.

A diferença básica entre dar o dízimo na Lei, e entregá-lo voluntariamente na Graça está na motivação com que se faz. O que se faz sob a Lei, se faz por mera obrigação religiosa. Mas o que se faz sob a égide da Graça, se faz por gratidão.

Detesto constatar que a maioria daqueles que dão o dízimo, o faz por medo de um suposto espírito maligno identificado como “o devorador”. Definitivamente, não há demônio ou legião com este nome. O que a Bíblia chama de “devorar” são as circunstâncias adversas sobre as quais não temos poder. Mesmo sabendo que o Senhor repreende o devorador, não deve ser esta a nossa motivação.

Seja a título de dízimo ou de oferta voluntária, tudo o que fizermos deve ser feito por amor e gratidão, jamais por coação ou constrangimento.

Mesmo sendo favorável ao dízimo, não creio que deva ser imposto a ninguém. Se não for voluntário, fruto de uma consciência grata e dependente de Deus, simplesmente não tem valor algum. Considero abominável o tipo de exposição feita em algumas igrejas para forçar seus membros a dizimarem. Listas com os inadimplentes são colocadas no mural. Membros são proibidos de participarem da Ceia, caso não estejam em dia com o dízimo. Alguns são até excluídos. Daí a ojeriza que muitos têm contra o dízimo. E não lhes tiro a razão. Todavia, há que se buscar um equilíbrio. Ninguém deve dizimar por medo ou por interesse, mas unicamente por amor. Sem neuroses. Sem culpa. Sem imposições. Só amor e nada mais. 

E se você prefere não dizimar, tudo bem. Mas não julgue quem o faça em amor. Lembre-se que para que o Evangelho chegasse a você, muitos que vieram antes foram fiéis em seus dízimos e generosos em ofertar, possibilitando assim que a mensagem fosse divulgada pelo mundo afora. E se você prefere ser um fiel dizimista, não julgue que não o seja. Ame-o. Acolha-o. Não o discrimine, sem se atreva a achar-se melhor do que ele.  

O mais grave pecado dos cristãos

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Por Hermes C. Fernandes

Sobre o que nossa fé e espiritualidade estão alicerçadas? Se o fundamento for errado, o que se dirá do restante do edifício? Como edificar sobre um fundamento carcomido pelo egoísmo e pela presunção?

De acordo com Paulo, se Cristo habita pela fé em nossos corações como geralmente temos afirmado, deveríamos estar arraigados e fundados em amor.  O que temos, porém, constatado é que boa parte dos que se apresentam como cristãos tem sua fé enraizada no medo, na culpa ou em interesses mesquinhos.

Queremos Cristo, não pelo que Ele é, mas pelo que Ele supostamente nos oferece. Queremos Cristo para garantir que tenhamos o que comer, vestir e onde morar.  Queremos Cristo para nos proteger dos ataques do diabo. Queremos Cristo para nos livrar do peso da culpa. Queremos Cristo pelo pavor que temos do inferno e da morte e não pelo privilégio de Sua doce companhia. No fundo, não é bem a Ele que desejamos, mas a preservação de nós mesmos. Dizemos que O amamos, mas estamos mesmos é apaixonados pelo nosso próprio ego. Trata-se, portanto, de uma espiritualidade doentiamente narcísica, em que Cristo não passa de um espelho onde refletimos nosso maior ídolo: o eu.

A partir daí, tudo desanda. Se começa errado, como poderia terminar certo?

Somente estando devidamente “arraigados e fundados em amor”, poderemos “compreender perfeitamente, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” do amor de Cristo “que excede todo o entendimento”, e assim, seremos “cheios de toda a plenitude de Deus” (Efésios 3:17-19). O inverso deste processo produzirá exatamente o resultado oposto. Se arraigados e fundados no medo (seja do inferno, da morte, do diabo ou do que for), não poderemos jamais compreender as reais dimensões do amor de Cristo, e, portanto, estaremos vazios de Deus e cheios de nós mesmos.  Veja porque nos deparamos com tantos cristãos ensimesmados, intragáveis, presunçosos, que só sabem apontar o dedo na cara dos outros, achando-se a última bolacha do pacote.

Vejamos, então, o sentido das dimensões do amor apontadas por Paulo no texto em questão.

Para o apóstolo, o amor não é apenas um sentimento abstrato, mas algo cujas dimensões podem ser conhecidas.  A primeira delas é a largura, que nos revela a abrangência do amor de Cristo.  Por não estarmos fundados e arraigados neste amor, temos o mau hábito de estreitá-lo, reduzindo-o de maneira tal a não comportar mais ninguém além nós. Achamo-nos detentores do copyright da verdade, e assim, vimo-nos no direito de excluir quem quer que pense diferentemente de nós. Se em vez de estar nas mãos de Cristo, a chave do inferno estivesse em nossas mãos, não titubearíamos em enviar para lá todos os nossos desafetos. Somos tão reducionistas que não duvido que alguns de nós tenham a pretensão de lotear o céu, garantindo um condomínio fechado exclusivo para os que pensam exatamente como eles. Se não for possível impedi-los de chegar lá, vamos, ao menos, nos empenhar para que os mantenhamos o mais afastados possível. Que bom que o céu deve ser grande o suficiente para isso. Esperamos não ter que cruzar com nenhum deles por lá. Não é porque Deus costuma ser misericordioso que somos obrigados a aturar gente chata.

Após citar esta inconveniente medida (largura), Paulo menciona o comprimento. Aqui todos parecem concordar. Quer dizer, quase todos. Quem não se simpatizaria com a ideia de que o amor de Deus por nós é eterno? Nada há que possa alterar o que Ele sente por nós. E esta é a razão pela qual a salvação não pode ser perdida. Calvinistas têm verdadeiros orgasmos intelectuais diante desta verdade.

Repare nisso: enquanto arminianos enfatizam a largura do amor de Deus (sempre cabe mais um, basta querer), os calvinistas enfatizam seu comprimento (que seja eterno enquanto dure). Como se uma coisa excluísse a outra. Se for tão comprido assim, tem que ser estreito. Não pode incluir mais ninguém além de nós. Ou se for assim tão largo, não pode ter toda esta extensão. Qualquer que estiver dentro, pode cair fora a hora que bem entender.

Para o calvinista, Deus é Todo-poderoso. Para o arminiano, Ele é Todo-amoroso. Para o calvinista, Ele até pode salvar a todos, porém, não quer. Para o arminiano, Ele quer salvar a todos, porém, não pode devido à restrição imposta pelo livre-arbítrio.

Posso arriscar um palpite? Se ambos entendessem as outras duas dimensões do amor tudo isso se equacionaria. Mas eles insistem em enfatizar uma única dimensão do amor de Deus.

Além da largura e do comprimento, Paulo também menciona a altura e a profundidade do amor de Cristo. O que tais dimensões representariam, afinal?

Quando se fala de altura, está se referindo a uma posição de onde se tem uma visão panorâmica da realidade. Cristo está acima de tudo e todos, reinando soberanamente e cuidando para que todos os Seus propósitos sejam consumados.  Do alto de Sua majestade, Ele enxerga o futuro com a mesma precisão com que enxerga o presente. Nada há que possa surpreendê-lo. Não imagine que Ele seja um mero espectador da história, assistindo impotente ao desenrolar da trama humana. Em vez disso, Ele mantém em Suas habilidosas mãos as rédeas do universo. Somente assim, Ele poderia garantir que todas as coisas cooperassem em conjunto para o nosso bem (Romanos 8:28). Todo calvinista concordaria com isso. Portanto, poderia se dizer que na perspectiva calvinista o amor de Deus é ao menos bidimensional. Somente a altura deste amor garantiria o seu comprimento. E sobre isso repousa a segurança de nossa salvação.

Porém, para alguns, principalmente os adeptos da chamada teologia de processo ou teísmo aberto, Cristo não ocupa um lugar tão alto de onde possa ver todas as coisas. Portanto, o futuro seria incerto. Nada, absolutamente nada estaria garantido.  Deus estaria no alto, mas não tão alto assim.

Para os hipercalvinistas, Deus não apenas está no topo do universo, como controla minimamente cada detalhe, sendo indiretamente responsável até pelas nossas más escolhas. Para estes, nossa liberdade restringiria a Sua soberania. Cá com os meus botões, pergunto-me se não seria exatamente o contrário. Somente um Deus absolutamente soberano jamais se sentiria ameaçado pela liberdade de Suas criaturas. De acordo com Jesus, o reino de Deus não teria a ver com controle absoluto, mas com cuidado pleno. Portanto, não tem a ver com o poder em si, mas com amor. Sendo assim, não seríamos meras marionetes em Suas mãos, mas agentes livres, responsáveis por suas escolhas, ainda que previamente conhecidas por Deus.  Mesmo que nosso arbítrio tenha sido comprometido pelo pecado, somos dotados de livre agência. Caso contrário, como poderíamos responder por nossos atos diante de Deus, o Supremo Juiz?

De todas as dimensões do amor de Deus, nenhuma é mais desprezada ou ignorada do que a profundidade.

Por ser tão alto, o amor de Deus enxerga para além do horizonte histórico. E por ser tão profundo, ele alcança até as esferas inferiores da existência. Não há ambiência que seja à prova do Seu amor. Não há cofre tão seguro que não seja vulnerável a ele. Por isso Davi exclamou: “Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também” (Salmos 139:7-8).

Ao ser apresentado em Apocalipse como tendo a chave do inferno, Cristo não ocupa da função de carcereiro, mas de libertador. Por isso as portas do inferno não podem prevalecer contra a igreja. Tampouco precisam ser arrombadas, uma vez que Ele mesmo as abre a fim de evacuá-lo, trazendo para fora os que foram e continuarão sendo alvo de Seu teimoso amor.

Se o amor jamais falha, conforme lemos no capítulo treze da primeira epístola de Paulo aos Coríntios, então, não haverá um momento em que Cristo desistirá de amar às Suas criaturas. Seu amor é tão largo, tão abrangente, que abarca a criação como um todo. Mas ele também é tão profundo que Cristo foi capaz de descer ao inferno para anunciar aos espíritos aprisionados a vitória da misericórdia sobre o juízo (1 Pedro 3:18-19; Tiago 2:13).

As chamas do inferno não podem rivalizar com as chamas do amor de Deus. Somente estas são eternas.  Quem nos convenceu a subestimá-lo? Haveria maior pecado do que este?

Após mencionar as dimensões do amor de Cristo, Paulo conclui dizendo que Deus é poderoso para fazer tudo “muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos” (v.20). Portanto, estejamos preparados para surpresas. Onde abundou o pecado, a graça deve superabundar. O estrago feito pelo pecado não é páreo para a grandiosidade da graça. Não ouse diminuí-la. Não se atreva a reduzi-la às suas expectativas egoístas. Os planos divinos vão muito além de nossos pedidos e pensamentos infantis.


Ele é bem mais poderoso do que imaginam os arminianos. Bem mais amoroso do que imaginam os calvinistas. E um dia, quando Cristo Se manifestar em glória, Ele há de ser tudo em todos, quer você concorde ou não (1 Coríntios 15:28).

Se quiser se inteirar deste assunto, acesse os seguintes links:



Como deter a lama tóxica da corrupção

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Por Hermes C. Fernandes

Será que ninguém se deu conta de que a maior tragédia ambiental de nossa história constitui-se numa metáfora perfeita de nossa condição moral e ética? Toda aquela lama tóxica fruto da ganância humana é a antítese do rio de Deus apresentado em Ezequiel 47. Enquanto o rio de Deus produz vida por onde passa (vv.8-9), a lama tóxica torna amargo o que antes era doce, destruindo por completo o ecossistema, exterminando espécies de peixes, desesperando milhares de pescadores e comprometendo o abastecimento de água de quase quatro milhões de pessoas.

Li em algum lugar que dias antes da tragédia, um pescador teria sido preso por estar pescando durante o tempo de desova dos peixes. Crime inafiançável, disseram. Então, o que deveríamos esperar que acontecesse a quem matou o rio inteiro? Inexplicavelmente, os responsáveis pela tragédia continuam soltos, enquanto a lama deságua no oceano depois de cruzar milhares de quilômetros sem ser detida.

Um pescador não tem valor algum aos olhos das autoridades. Prendê-lo é uma questão de ordem. Somente assim, outros seriam coibidos de praticarem o tal crime contra a natureza. Ninguém quis saber se ele não estava cometendo o tal delito para alimentar seus filhos. Mas uma empresa que lucra quase três bilhões de reais em um ano tem o seu valor. Quem vai querer mexer com ela? E os impostos que ela paga? E a receita que gera para o estado? E as propinas pagas aos fiscais? E a sua representação política no congresso?

Como será o Natal nas cidades que dependiam do Rio Doce? Quantas famílias perderam tudo na cidade de Mariana? Quem as ressarcirá? E quanto às vidas que se perderam no momento do rompimento da barragem? Como ressarci-las?

A mais tóxica das lamas é a corrupção. Ela jorra dos gabinetes dos palácios, flui entre os corredores do poder, e por fim, contamina deságua nas ruas, contaminando todo o tecido social.

As calhas por onde passa toda esta lama já está previamente delimitada. Criam-se leis e depois se inventam meios para dificultar o seu cumprimento.  Por exemplo:  a prefeitura  concede alvará para um estabelecimento sem que este ofereça estacionamento para os clientes. Sem alternativa, os clientes são obrigados a deixar seus automóveis na calçada próxima. Pronto. A armadilha está armada. A guarda municipal vai multar e rebocar o carro. A menos que se ofereça propina ao guarda. O governo exige a vistoria anual de todos os carros emplacados no Estado. Ao levá-lo para ser vistoriado depois de haver pagado um imposto altíssimo (IPVA), o funcionário do DETRAN condena seus pneus mesmo estando em ótimo estado. Ou você paga a propina exigida ou terá que voltar noutro dia com pneus novos.  Se cada funcionário cobrar 50,00 reais de propina e reprovar ao menos dez carros por dia, serão 500,00 reais diários. Se trabalhar 22 dias por mês, serão 11.000,00 reais de propina mensais. Se houver cinquenta funcionários no posto do DETRAN, serão 550.000,00 de propina por mês e 6.600.000,00 por ano. Quem vai querer construir uma barragem para impedir esta lama? Por que o Rio de Janeiro é o único Estado que exige vistoria dos veículos? Quem mais ganha com isso além dos funcionários? É lama para todo lado!

Então, por que ser honesto? Que sentido faz se esforçar para ser um cidadão de bem?  Até para tirar um lixo extra, o gari pede um por baixo. Um serviço gratuito acaba sendo cobrado. Uma “cervejinha aqui”, outro “agrado lá”, e a lama vai percorrendo seu caminho.

E isso começa em casa, quando prometemos aos filhos que lhes cobriremos de presentes se passarem de ano na escola, quando os ensinamos a comprar a simpatia da professora com uma ingênua maçã, quando os estimulamos a colarem na prova, quando roubamos o sinal de wi-fido vizinho, quando pedimos que mintam dizendo ao cobrador que não estamos em casa, etc.

Ao chegarmos na igreja, ouvimos sermões que insinuam que Deus só nos abençoará mediante ofertas que fizemos. Ora, se o próprio Deus se deixa comprar, o que dirá os homens, não é mesmo?

Especialistas dizem que o estrago feito pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco precisará de ao menos cem anos para ser revertido. E o que dizer do estrago feito pela corrupção? De quanto tempo precisaremos para reverter isso?

Jesus diz que aquele rio visto por Ezequiel fluiria do interior daqueles que n’Ele cressem. Suas águas cristalinas são o antídoto para toda esta lama tóxica da corrupção. O problema é que enquanto a lama corre livremente sem que haja uma barragem capaz de detê-la, nós temos construído verdadeiras represas para impedir o fluir do rio da vida que jorra do nosso interior. Achamos mil desculpas para restringir nossa espiritualidade ao campo da subjetividade. Enquanto cantamos louvores a Deus, maquinamos um jeito de burlar as leis, de sonegar impostos, de nos locupletar da frouxidão das engrenagens da máquina pública.

Soube de um caso de um pastor que orientou a um membro de sua igreja a mentir para receber o seguro de seu caminhão que havia se envolvido em um acidente.  E o que dizer de líderes que negociam os votos do seu rebanho? E os que usam a igreja para lavar dinheiro sujo? Está tudo errado! O mundo não nos levará a sério enquanto formos coniventes com esta sem-vergonhice.

Pode até ser que a Samarco e a Vale do Rio Doce saiam ilesas disso tudo. Pode ser que o governo faça vistas grossas e se limite a aplicar uma multa irrisória. Porém, ninguém há que escape da justiça divina. Todos teremos que prestar contas ao Juiz de toda a terra. O que foi feito debaixo dos panos será finalmente trago à luz. O que foi colocado dentro da cueca e das meias será exposto. Nenhuma explicação poderá convencer ao tribunal divino de nossa inocência. Portanto, resta-nos o arrependimento e uma mudança drástica de rumo.

Se preferir manter sua alma etiquetada, não se atreva a falar mal do governo em nenhuma instância. Tire o argueiro de seu olho para ter condição moral de apontar o cisco que há no olho de outrem.

Que o Senhor aja com misericórdia para conosco, dando-nos a oportunidade de repensar nossos caminhos e mudar nossa postura. Ainda há tempo. Só não se sabe até quando...

A Redenção do Meio-Ambiente e a Coroa de Espinhos

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Por Hermes C. Fernandes




Para entendermos melhor a grandiosidade da redenção realizada por Cristo, precisamos compreender a extensão do estrago feito pela Queda/Ruptura. O pecado não apenas atingiu o ser humano, seu protagonista, como também o cenário no qual estava inserido. E isso por causa de profunda ligação entre o homem e a terra. Biblicamente, esses dois termos são muitas vezes intercambiáveis (por exemplo: Sl.96:13; Jr.22:29; Os.1:2; Ap.13:3). Quando Deus fala à Terra, está falando aos seus moradores. O homem não é apenas produto do pó da terra, ele é a Terra, que recebendo o sopro da vida, passa a ter consciência de si mesma, e da realidade na qual está inserida.

O pecado humano não poderia ficar impune. Ele traria resultados que afetariam o homem e o seu ambiente.
“Ao homem disse: Porque deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por tua causa; em fadiga comerás dela todos os dias da tua vida. Ela produzirá também espinhos e abrolhos, e comerás das ervas do campo. Do suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste tomado; pois és pó, e ao pó tornarás.” Gênesis 3:17-19
Até aquele momento, a Terra era um ecossistema perfeito, um verdadeiro paraíso. Todos os seres vivos estavam em harmonia, e submetiam-se prazerosamente ao homem. Lavrar e guardar a terra era uma atividade extremamente prazerosa e gratificante. Mas agora, o trabalho tornar-se-ia penoso, na medida em que a terra passasse a produzir espinhos e abrolhos. O homem e toda a natureza havia se degenerado.

Nas palavras de Paulo, “a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou” (Rm.8:20). Os espinhos representam a reação da natureza à vaidade humana. Ela que antes estava sujeita ao homem em plena comunhão com seu Criador, agora teria que se sujeitar a um homem rebelde e vaidoso. Por mais que o homem busque construir um ambiente mais acolhedor, tentando de algum modo reproduzir artificialmente o paraíso perdido, os espinhos o acompanham. Isaías profetiza: “Nos seus palácios crescerão espinhos, urtigas e cardos nas suas fortalezas. Ela será uma habitação de chacais, e lar para as corujas” (Is.34:13). Não há como fugir, os espinhos estão por toda parte, como lembrança de que nossa natureza está igualmente degenerada, à exemplo da natureza à nossa volta.


Na verdade, os espinhos servem a um propósito benéfico. Eles nos esvaziam quando estamos inflados por nossa própria vaidade. Que o diga Paulo, que para que não se exaltasse pela excelência das revelações que recebera de Deus, recebeu de bônus um espinho na carne.

De fato, o mundo não é mais um lugar seguro pra se viver. E não se trata de um fenômeno novo. Desde a Ruptura, o mundo deixou de ser um lugar seguro para a raça humana. Não só a terra passou a produzir espinhos, mas o próprio coração humano passou a ser um terreno inóspito para o Espírito de Deus e para a Sua Palavra.

Na parábola do Semeador, Jesus diz que uma parte das sementes “caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram (...) O que foi semeado entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo, e a sedução das riquezas, sufocam a palavra, e fica infrutífera” (Mt.13:7,22).

O homem natural não consegue entender as coisas espirituais, pois lhe parecem loucura, já dizia Paulo. Seu coração está tomado de espinhos, devido à sua natureza degenerada. Jesus identifica esses espinhos com “os cuidados deste mundo”, e com “a sedução das riquezas”. Quando ele começa a achar que está conseguindo preencher o vazio de sua alma, esses mesmos espinhos lhe causam perfurações tão agudas, que acabam por ocasionar em um vazio ainda maior.

O que esperar de uma raça caída, com a alma tomada por espinhos? Miquéias, em um momento de desespero, deixa escapar um grito:
“Ai de mim! Estou feito como quando são colhidas as frutas do verão, como os rabiscos da vindima; não há cacho de uvas para comer, nem figos temporãos para que a minha alma deseja. Pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja reto. Todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com uma rede. As suas mãos fazem diligentemente o mal; o príncipe exige condenação, o juiz aceita suborno, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles são perturbadores. O melhor deles é como um espinho, o mais reto é pior do que uma sebe de espinhos. Veio o dia dos teus vigias, veio o dia da tua visitação. Agora é o tempo da sua confusão. Não creiais no amigo; não confieis no companheiro. Daquela que repousa no teu seio guarda as portas da tua boca. Pois o filho despreza o pai, a filha se levanta contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem são os da sua própria casa”. Miquéias 7:1-6.
Sentimo-nos envergonhados, e igualmente desesperados quando constatamos a grave situação em que se encontra a humanidade. Corrupção, impunidade, terrorismo, intrigas, são apenas alguns dos espinhos produzidos no terreno inóspito do coração humano sem Deus. Mas o que dizer da Igreja, a nova humanidade recriada em Cristo. O que se deve esperar dela?
“A terra que embebe a chuva que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção da parte de Deus. Mas se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada, e perto está da maldição. O seu fim é ser queimada. Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores e pertencentes à salvação, ainda que assim falamos.”Hebreus 6:7-9
Esta é a promessa de Deus para com o Israel da Nova Aliança: “A casa de Israel nunca mais terá espinho que a pique, nem abrolho que lhe cause dor, entre os que se acham ao redor deles e que os desprezam. Então saberão que eu sou o Senhor Deus” (Ez.28:24).

Somos o povo regenerado por Deus. Somos a nova Criação. Somos a nova Terra. E o prenúncio de que em breve, tudo à nossa volta será igualmente regenerado. O preço pago por Cristo na Cruz, não apenas liquidou nossa fatura, mas também desfez a maldição que pesava sobre a natureza. A coroa de espinhos que Ele trazia em Sua cabeça apontava para a redenção de toda a criação (Mc.15:16-17). A Cabeça da nova humanidade, Cristo, foi perfurada pelos espinhos da nossa vaidade. Antes que os espinhos brotem na terra, eles brotam na cabeça, na mente, na consciência humana cauterizada pelo pecado. Por isso, Cristo teve Sua cabeça coroada de espinhos. Lá na cruz, Deus feito homem, arcou com as conseqüências da Queda.

Uma vez que Cristo tenha pago o preço da redenção da criação, resta-nos trabalhar para que a humanidade se alie ao resto da criação, deixando de ser predadora e destruidora, para ser sua cultivadora e guardiã.

Que igreja é essa?

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Por Hermes C. Fernandes

“Que igreja é essa?” foi a pergunta que encontrei entre os comentários de um vídeo que postei recentemente em meu perfil no facebook. Para que se perceba a ironia da pergunta, será necessário revelar o conteúdo da postagem: trata-se de uma apresentação do ministério de louvor de nossa igreja cantando “Que país é esse?” de Renato Russo em pleno culto de domingo.

Seria uma estratégia evangelística para atrair jovens à igreja? Ou apenas uma maneira de criar polêmica, chamando a atenção para o trabalho realizado pela igreja? Nem uma coisa, nem outra.

A Reina (sigla para “rede internacional de amigos”) é uma comunidade localizada no subúrbio carioca do Engenho Novo. Sem qualquer investimento em mídia, a igreja já chamou a atenção de grandes veículos de comunicação como a Globo News, a revista IstoÉ e o jornal “O Globo”.

O que torna a Reina uma igreja diferente? Por que tem atraído pessoas de todas as camadas sociais e faixas etárias, sobretudo jovens universitários? Podemos enumerar vários fatores. Dentre os quais, a contextualização de sua mensagem.

Durante seus cultos, usa-se linguagem coloquial, sem recorrer a clichês e jargões religiosos. Os temas das reflexões são sempre atuais e buscam provocar os participantes à conscientização e a consequente tomada de posição, sem extremismos, nem apelos sensacionalistas. Fala-se de engajamento social, racismo, sexualidade, ciência, cultura e espiritualidade. Tudo sem histeria, gritarias e manipulação psicológica. Ninguém se sente constrangido ao levar um amigo ou familiar.

Como qualquer igreja, a Reina também pede contribuições que visam tanto sua manutenção, como as obras sociais realizadas em várias comunidades, principalmente no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho onde mais de sessenta famílias foram adotadas e recebem mensalmente uma cesta básica. Apesar disso, em um culto que dura cerca de uma hora e meia, não se fala de dinheiro mais do que dois ou três minutos e sempre de maneira lúcida, equilibrada, sem incentivar barganhas com Deus. 

Ninguém é motivado pelo medo, pela culpa ou por interesses. Por isso, o nome "diabo" é raramente mencionado. As pessoas querem mesmo é ouvir falar de Deus.

Entrevista para a Globo News
O ambiente de culto é bem informal. A maioria se veste de maneira casual. Ninguém é submetido a situações vexatórias ("olhe para quem está do seu lado e diga..."). Também não se fala de política partidária. Não há desfile de candidatos no púlpito, nem mesmo sugestão para que os membros votem num ou noutro. Porém, há um trabalho de conscientização acerca do exercício da cidadania. Prega-se um evangelho desideologizado, isto é, sem vínculo ideológico. 


A maioria das canções entoadas durante os cultos é de autoria de ministros da própria igreja. Isso se dá pelo fato de que as canções evangélicas atuais destoam da proposta da Reina. Prefere-se temas como a natureza, relacionamentos, críticas sociais, em vez de "vitória", "anjos pra todo lado", "bênçãos", "prosperidade", "chuva de poder", etc. Não é incomum que se cante uma música secular antes da ministração da Palavra. Mas como já foi dito acima, não se trata de estratégia para atrair novos fiéis.  Acredita-se que o Espírito Santo também inspire pessoas de fora do círculo da igreja para levantar questões muitas vezes ignoradas ou desprezadas pelos cristãos. Por exemplo: no dia em que se celebrou a Consciência Negra, não se encontrou uma única canção cristã tratando do tema. Por isso, o ministério de louvor optou por cantar “Sararará crioulo” de Sandra de Sá seguido pela declamação da canção "Negro Drama" dos Racionais em forma de poema. No culto em que se cantou “Que país é este?”, o tema abordado foi a tragédia ocorrida na bacia hidrográfica do Rio Doce (“Acabou-se o que era doce” foi o título da mensagem pregada por Hermes C. Fernandes, bispo da igreja). O bispo fez uma analogia entre o ocorrido e o mar de lama tóxica da corrupção que jorra dos palácios governamentais e contaminam toda a sociedade. Nenhuma canção se encaixava tão bem quanto a da Legião Urbana. A propósito, o cuidado com o meio-ambiente é uma das principais bandeiras da Reina, pois crê que o projeto de Deus inclui cada uma de Suas criaturas, e que este mundo esteja destinado a ser restaurado, não destruído como defendem alguns. 

Noutra ocasião, quando se tratou do tema “Conflito de gerações”, entoou-se “Como nossos pais” de Elis Regina, e "Pais e filhos" do Legião, levando a multidão presente no evento às lágrimas.

Produções cinematográficas e televisivas também se tornam ganchos para as reflexões. Não raro, exibi-se clipes musicais ou trechos de filmes durante o culto.

Além de buscar transpor os muros entre a espiritualidade cristã e a cultura popular, a Reina também procura apaziguar a relação entre a fé e a ciência. Não é à toa que tem em seus quadros gente ligada à academia e a produção científica. Biólogos, físicos, psicólogos, pedagogos, sociólogos, além de universitários que alicerçam sua fé em Deus sem com isso abrir mão dos postulados científicos.

Mas talvez, o que mais chame a atenção na proposta da Reina seja sua ênfase na ética e não no moralismo. Questões ligadas à sexualidade como sexo antes do casamento e homossexualidade são tratadas com lisura, sem preconceito e fundamentalismo. Não há assunto tabu que não possa ser tratado durante os encontros que ocorrem aos domingos 9h e 19h, segundas 19h, quartas e sextas 19h30. 

Estimula-se também a vida social dos membros. Ninguém deve deixar amizades antigas por haver se filiado à igreja. Assim como Jesus, um cristão reinista pode e deve frequentar festas, participar de atividades culturais, vivendo como uma pessoa normal, sem um surto de santidade alienante. Não se tem a pretensão de ser uma igreja descolada na embalagem, mas fundamentalista no conteúdo. 

Além da causa do evangelho, a Reina também abraça qualquer causa que seja justa, como por exemplo, a emancipação da mulher, a garantia de direitos para todo e qualquer segmento social, inclusive o LGBT, o empoderamento das minorias oprimidas (negros, índios, mulheres, portadores de deficiência, imigrantes, etc.) e a liberdade de culto. Adeptos de quaisquer credos religiosos são respeitados. Ninguém tem o monopólio da verdade. A mesma graça incomum capaz de inspirar um artista secular a produzir uma obra que desperte o que há de melhor no ser humano, também pode ter inspirado pessoas de várias tradições religiosas para trazer lampejos da verdade em seus ensinamentos. Em vez de buscar os pontos de atrito entre os diversos credos, que tal buscarmos pontos convergentes? O diálogo é sempre bem-vindo. A única coisa que a Reina não tolera é a intolerância.
Choque de Amor no Lixão de Jardim Gramacho

Tudo aquilo em que se crê, tudo aquilo que se prega, só tem sentido à luz do amor. Esta, sem dúvida, é a principal ênfase reinista. Tudo mais decorre daí. Amor que acolhe o diferente e aproxima o distante. Amor que sai ao encontro do outro em vez de esperá-lo passivamente. Amor que nos convoca ao perdão recíproco. Amor que gera a justiça a fim de patrocinar o convívio pacífico entre os homens. Amor que nos diviniza à medida que nos torna mais humanos. Amor que faz cessar as hierarquias, nivelando-nos a todos e colocando-nos à serviço do próximo. Amor que se abstém do controle para o exercício do cuidado. Amor que inclui em vez de excluir. Que estende a mão em vez de apontar o dedo. Que revela que quem está dentro não é melhor do que quem está fora. 


A Reina acredita no futuro promissor da humanidade. Para o povo reinista, amar ao próximo também é amar o que virá depois de nós, as próximas gerações. Por isso, um dos seus lemas é deixar para os nossos filhos um mundo melhor e mais justo do que o que recebemos de nossos pais. Mas também deixar para o nosso mundo, filhos melhores do que nós. 

A Reina não se considera uma igreja melhor que as demais. Mas admite manter certa distância dos modismos gospel, tomando a contramão do triunfalismo que impera em alguns setores, do tradicionalismo que impera em outros e da obsessão por crescimento numérico. 

As reuniões de pastores transcorrem a portas abertas, e o assunto gira sempre em torno de como servir melhor aos que foram colocados sob os seus cuidados. 

Ainda há muito que se melhorar e por isso, a Reina mantém o canal aberto para receber tanto sugestões quanto críticas ao seu trabalho.

No final deste ano, a Reina completa 24 anos de fundação. Obviamente, ela não era a mesma quando nasceu. De lá para cá, muita coisa mudou. E, sinceramente, espera-se que não seja a mesma quando fizer seu jubileu de ouro. A Reina está num ininterrupto processo de aprimoramento, reinventando-se a cada dia a fim de oferecer respostas às demandas do seu próprio tempo e levantar questões que porventura passem despercebidas.

No próximo final de semana estaremos celebrando nosso aniversário. Sábado, dia 5 às 18h30, domingo, dia 6 às 9h e segunda, dia 7 às 19h. Considere-se nosso convidado especial.

Rua Visconde de Santa Cruz, 226 Engenho Novo, RJ - Próximo do Hospital Vital, da 24 de Maio, da Barão do Bom Retiro e da Marechal Rondom.

Assista abaixo alguns exemplos de canções e poemas seculares apresentados em nossos cultos.





Renato Russo na Reina???? Não...Apenas sua mensagem de amor!!!
Posted by Edson de Paula on Domingo, 30 de agosto de 2015

Não somos profissionais e ensaiamos apenas duas vezes mas vale mostrar que a dança pode realmente tornar a vida mais doce e mais leve. Pra vocês que pediram, o vídeo da dança do Reinencontro :)
Posted by Revelyn Fernandes on Sábado, 25 de abril de 2015

Rhuan Fernandes declamando o poema de Carlos Drummond de Andrade no culto da Reina.
Posted by Hermes C. Fernandes on Terça, 1 de dezembro de 2015


Declamação de uma canção dos Racionais no culto da Consciência Negra na Reina com Frann Seabrah.
Posted by Hermes C. Fernandes on Domingo, 22 de novembro de 2015
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